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O valor da raça

O valor da raça

O cenário é desolador: entramos nas livrarias, consultamos a ficção pátria. E rapidamente concluímos que os novos romancistas escrevem sobre mundos imaginários.

António Araújo
Da Direita à Esquerda
Cultura e Sociedade em Portugal, dos Anos 80 à Actualidade
Lisboa: EDitorial Saída de Emergência, 2016

por João Pereira Coutinho joaoa_pereira_coutinho.png

Professor IEP-UCP; Cronista, Folha de São Paulo

No século XX, tomado por modernismos e experimentalismos vários, torna-se mais difícil divisar um cronista (no sentido histórico e literário do termo) que nos devolva uma imagem de nós. Mas talvez não seja possível compreender a ditadura – o seu “tom”, as suas rotinas, os seus silêncios e melancolias – sem passar pela prosa soberba de José Cardoso Pires.

O valor da raça

Hoje, publica-se mais do que nunca. Mas quando as gerações futuras quiserem conhecer o nosso tempo pela literatura, que encontrarão? Pouco ou nada: a realidade deixou de interessar aos nossos escritores, demasiado apaixonados pela linguagem para levantarem o olhar para o mundo que corre lá fora.

O primeiro mérito de “Da Direita à Esquerda” reside aqui: na “fome de realidade” (expressão de David Shields) que anima António Araújo para compreender o Portugal contemporâneo. O autor, com extrema cautela, avisa que o ensaio não é “académico” (apesar das cem páginas de um minucioso aparato crítico). Melhor assim: sem os constrangimentos da “ciência”, a prosa ganha uma vivacidade e ironia quase romanescas.

Mas façamos uma pausa: de que falamos quando falamos de direita (ou de esquerda)? António Araújo não se aventura por essa discussão arcana, que regularmente consome os melhores espíritos. Mas é importante passar por ela para chegarmos a uma primeira tese do ensaio.

Se aceitarmos a definição suficientemente lata do filósofo Steven Lukes de que a esquerda e a direita contemporâneas dependem do grau de proximidade ao chamado “princípio de rectificação” – a esquerda tende a ver no Estado esse agente correctivo das desigualdades de “bens primários” enquanto a direita concede primazia à liberdade individual – chegamos facilmente à conclusão que “esquerda” e “direita” são rótulos que não se aplicam com rigor ao país em causa. Todos somos “rectificadores” – e as diferenças de grau não são suficientes para grandes clivagens ideológicas.

Verdade que, de vez em quando, surgem alguns “liberais”, ou “conservadores liberais”, ou até “libertários” de boa cepa. Todos nos conhecemos – e todos repetimos os mesmos lamentos sobre um Estado voraz e irreformável. No final, lamento dizê-lo, o discurso não passa “lá para fora”, onde o Estado permanece como agente central da nossa vida colectiva. Quem disse que nove séculos de história se apagavam da noite para o dia?

O valor da raça António Araújo reflecte sobre esse “apagamento” da política – e das divisões tradicionais entre esquerda e direita – no país que somos. Tudo concorre para um mesmo “centro”, escreve o autor: um centro onde nunca se põe em causa o “princípio da rectificação”, excepto nas “performances” que lemos nos jornais ou vemos na televisão.

A política, sobretudo nas democracias mediáticas, é uma encenação constante nos seus recintos apropriados. Porque, no fundamental, o que existe é uma aversão à ruptura e, mais ainda, ao extremismo e ao radicalismo. Mesmo a “austeridade”, observa António Araújo, não brindou Portugal com o tipo de fenómenos “populistas” (à falta de melhor palavra) que emergiram em Espanha, em Itália, na Grécia.

A esquerda, e em particular a nossa extrema-esquerda, apenas reclamou direitos perdidos e rendimentos cortados sem batalhar por um qualquer projecto utópico que fosse mais além do que a mera nostalgia por um mundo perdido. De facto, encontramos reaccionários onde menos se espera.

A pergunta é óbvia: se as clivagens ideológicas são mais aparentes do que substanciais, o que sobra? Sobra, como muito bem escreve o autor, a algazarra das pequenas coisas: “microcausas”, enfim, que excitam momentaneamente o mandarinato porque é preciso ganhar a vida e pagar as contas. O abate de um cão; um “arrastão” em Carcavelos; um caso de pugilato entre adolescentes – tudo serve para, no fundo, não servir para nada.

Ao final do dia, a “esquerda” e a “direita” encontram-se nos mesmos restaurantes, nos mesmos bares, nas mesmas ruas, nos mesmos filmes – e até partilham, com igual agrado, as mesmas séries, as mesmas roupas, os mesmos gadgets

O meio é pequeno; a endogamia é grande; e com a paternal vigilância de Bruxelas, que no essencial define as questões de adultos, o que sobra é uma espécie de jardim infantil onde as birras são ocasionais mas nunca permanentes.

Retrato cruel? Admito que sim. Como admito que nem todos os actores políticos partilhem, de facto, o mesmo guião e o mesmo palco: o nosso PCP é um universo à parte, na teoria e na prática.

Mas o retrato é suficientemente realista e, atrevo-me a dizer, salvífico: a abolição da política no que ela tem de contrastante pode impedir a apresentação e a aplicação de programas verdadeiramente reformistas. Mas o que se perde em mudanças ganha- -se em sossego – uma espécie de sossego familiar, quase tribal, que paira como uma nuvem sobre a nossa gente. Para abusar de um título de Raymond Carver, heroísmos não, por favor.

Significa isto que não existem clivagens reais em Portugal? António Araújo acredita que sim e situa essa divisão entre as “elites” e o “povo”. Dito de outra forma: as “elites”, sejam de esquerda ou de direita, ignoram o “povo”, excepto para oportunismos eleitorais, lamentações antropológicas (a “choldra”, a “piolheira”, etc.) ou exercícios humorísticos.

O gesto revela “provincianismo”, escreve Araújo, embora o autor seja impreciso sobre a origem desse “provincianismo”. Será por desinteresse? Ignorância? Ansiedade de status? Uma combinação dos três?

Mistério. Pessoalmente, apenas posso acrescentar que o desprezo é mútuo e secular. As mesmas “elites” que não esperam nada do “povo” já deviam saber que o “povo” também não espera nada delas.

“Da Esquerda à Direita” é um dos mais inteligentes ensaios sobre Portugal e os portugueses que li em anos. E a única dúvida que me resta é saber se António Araújo olha para o cenário pusilânime que descreve com exasperação, resignação ou ternura.

Eu confesso que tenho dias. Mas também confesso que, com a idade e uma boa dose de conservadorismo, há momentos em que os nossos vícios adquirem os contornos improváveis de virtudes.

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