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Padre João Seabra

O Instituto de Estudos Políticos distingue hoje com o prémio “Fé e Liberdade” o Cónego João Seabra. Tenho o gosto e o privilégio de conhecer o Padre João há mais de 40 anos.

Guilherme de Almeida e Brito Guilherme de Almeida e Brito

Vice-Director, Católica Lisbon School of Business and Economics

Nesta relação de décadas, a dimensão que mais sobressai, a mais marcante e que está intimamente ligada à atribuição do prémio Fé e Liberdade, é a dependência do Padre João de Deus e a sua fidelidade à Igreja. O Padre João é um homem de fé: concebe-se a si próprio como profundamente dependente de Deus e fiel à Igreja. Essa perspectiva de si próprio e do significado da vida torna-o um homem muito livre. Muito dependente de Deus, o que significa muito livre em relação a tudo o resto, de forma muito natural, quase sem esforço. Na dependência de Deus, a liberdade em relação ao resto parece ser no Padre João tão simples como respirar.

A segunda dimensão que mais me marcou é a valorização de cada momento e o olhar para cada pessoa tendo presente o seu destino, a sua dignidade última. Concretizo com um exemplo: de cada vez que um Papa veio a Portugal, a começar em 1982, o Padre João nunca nos deixou de interpelar vivamente para vivermos esse momento como um acontecimento decisivo, verdadeiramente transformador. Disse-nos sempre algo como: Ver, encontrar o Papa é como ver, encontrar Jesus. Como queres preparar esse teu encontro pessoal com Jesus? Desta pergunta levada a sério, nasce uma enorme liberdade e, consequentemente, muitas iniciativas.

E o que se aplica, em particular, a cada visita do Papa, pode-se aplicar a qualquer dia, a qualquer conversa, a qualquer trabalho. A possibilidade de viver cada conversa como sendo decisiva para o nosso destino, para a nossa vocação, torna a vida uma aventura fascinante. Ao conversarmos com o Padre João é manifesto que ele está a olhar para nós tendo presente o nosso destino, o nosso desejo profundo de felicidade. É uma vertigem a possibilidade de conceber a vida desta forma, com esta dignidade.

Padre João SeabraAssim, para mim é uma total evidência, hoje tal como há 10, 20 ou 30 anos que juntamente com os meus pais, a Isabel e mais tarde os nossos filhos, o Padre João tem sido a pessoa mais decisiva na minha vida. Isso é muito evidente para mim e para minha família, mas o que é verdadeiramente enternecedor é que é igualmente evidente para centenas de pessoas, centenas de famílias.

O interesse sério pelo destino de cada pessoa confere ao Padre João uma dimensão profunda de paternidade e torna o Padre João um verdadeiro educador. Uma dimensão que ultrapassa as limitações geográficas ou geracionais. Partilho outro exemplo: quando estávamos nos Estados Unidos, o Padre João com o seu sentido de paternidade conseguiu ir visitar-nos várias vezes, apenas para saber e ver como estávamos, a nós e a outros dos seus amigos. No entanto, com a sua disponibilidade e interesse pelo destino de cada um, não só nos visitava a nós, como rapidamente se tornava referência para os nossos amigos americanos que tinham com o Padre João conversas absolutamente decisivas. Assim, agora quando vêm a Lisboa, vêm-nos visitar a nós com quem conviveram vários anos, e ao Padre João, com quem conversaram apenas três ou quatro vezes, mas de forma realmente transformadora.

Dos aspetos que mais me comove é encontrar no relacionamento do Padre João com os nossos filhos e os seus amigos, que têm cerca de 20 anos, a mesma paternidade que caracterizou e caracteriza a sua relação comigo e com os meus amigos. Muitas gerações têm assim beneficiado deste interesse do Padre João pelo destino de cada um, estendendo-se até à geração do meu sobrinho mais novo que tem 7 anos e que nas boleias de carro com a Isabel dialoga com entusiasmo com o Padre João.

A terceira dimensão que gostaria de sublinhar é que o Padre João tem uma capacidade natural para uma liderança carismática que gera comunidades. Porque se concebe como dependente de Deus, o Padre João não se apresenta como critério ou como exemplo. Aponta para um Outro, para Deus que corresponde ao nosso desejo de felicidade. E daí nasce uma enorme fecundidade e criatividade, vivida com muita liberdade e em comunidade.

Padre João Seabra

 Padre João Seabra; Isabel Capeloa Gil, Reitora da Universidade Católica Portuguesa; Robert Royal; Guilherme de Almeida e Brito

Nos vários locais por onde foi passando o Padre João sempre teve facilidade de congregar muitas pessoas. Tem sido aparentemente simples lançar com criatividade, em comunidade, muitas iniciativas inovadoras que, mesmo assim, em termos de execução, não dependem demasiado da disponibilidade de tempo do Padre João.

Desde os tempos de jovem seminarista com a pastoral diocesana, com as equipas de Nossa Senhora e os campos de férias, como capelão da Universidade Católica, com o Grupo de Apoio à Capelania, as peregrinações a Fátima que foram lançadas nos anos 80 e duram até hoje, o GasAfrica, as aulas na Católica, as Razões da Nossa Esperança, a criação de programas de televisão, as missas em Santa Isabel, a vida nas paróquias de Santos e da Encarnação, o apoio à formação de seminaristas e o acompanhamento próximo dos jovens padres, a liderança do movimento Comunhão e Libertação e do Instituto de Direito Canónico, a colaboração no Patriarcado, os meetings de Lisboa, as férias do CL com mais de 400 pessoas desde os avós até aos netos recém-nascidos, a relevância dada à preparação dos acólitos e aos grupos de preparação para o Crisma, o cuidado com a liturgia, a preparação das homilias e dos retiros, as procissões no centro de Lisboa quando elas estavam em desuso, as múltiplas conferências organizadas, por exemplo, sobre a Doutrina Social da Igreja, há um vastíssimo número de iniciativas, que não tenho de todo a pretensão de conhecer sequer a maioria, que revelam bem a fecundidade de uma grande liberdade.

Os mesmos critérios aparecem na criação do colégio de São Tomás. Nasce de um interesse em proporcionar às crianças e jovens uma formação integral, católica, centrada no desenvolvimento da pessoa para o seu destino. A criação do colégio de São Tomás seria em termos realistas um evento muito improvável. Num momento de dificuldade para a liberdade de educação, o Padre João, como educador, dispôs-se a implementá-la de forma prática, com persistência e generosidade, sempre bem acompanhado por muitos que estão aqui hoje. Com recursos muito limitados, o Padre João foi capaz de congregar a sociedade civil, de mobilizar muitas boas vontades, de constituir uma comunidade que ajudou a criar e a desenvolver de maneira sólida uma nova proposta educativa que em 12 anos já teve impacto na educação de mais de 3000 jovens, incluindo mais recentemente a gestão do colégio de S. José do Ramalhão, em Sintra.

Para além das três dimensões que mais me tocaram: a dependência de Deus e a fidelidade à Igreja, a valorização de cada instante como decisivo e o focus no destino de cada pessoa e finalmente a capacidade de gerar comunidades, há toda uma série de dimensões que dão um colorido próprio à presença do Padre João: uma cultura vastíssima e uma inteligência arguta, uma capacidade pedagógica para explicar de forma clara e completa temas complexos, uma enorme facilidade linguística, já o ouvi pregar e conversar fluentemente em pelo menos cinco línguas, a facilidade de relacionamento com pessoas muito diversas, a sua irreverência e o seu humor.

O júri do prémio Fé e Liberdade pediu-me para falar sobre o Padre João e eu assumi que ao fazê-lo me estavam a pedir para partilhar esta perspetiva pessoal. Mas para o premiado e para o Instituto de Estudos Políticos, não me pareceu justo ficar limitado a esta experiência de discípulo face ao mestre, de filho face ao pai. Assim, pedi alguns outros contributos que melhor do que eu fazem justiça ao homenageado e que passo a partilhar:

De Sua Eminência o Cardeal Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente: entrámos no mesmo dia no Seminário, e o João Seabra nunca mais me saiu da vida. Pela amizade, pela inteligência, pela graça. A dele e a de Deus que nos fez encontrados e indefetivelmente amigos!

De Sua Excelência o Presidente da República, Professor Marcelo Rebelo de Sousa: o Senhor Cónego João Seabra, meu querido amigo há cinquenta e cinco anos, foi sempre de carácter e personalidade fortíssimos, de inteligência brilhantíssima, de amizade lealíssima, de alegria de viver contagiante, inseparável de uma Fé que, se preciso fosse, criaria montanhas para as poder mover com militantismo inigualável.

Do Juri do Prémio Fé e Liberdade, os ilustres Professores Manuel Braga da Cruz, Mário Pinto e João Carlos Espada: o Padre João Seabra é uma referência pública para inúmeros católicos portugueses, especialmente do Patriarcado de Lisboa, como sacerdote que combate o bom combate pela fé. A mais distintiva faceta desse combate, é a defesa e promoção da liberdade: da liberdade religiosa, da liberdade da Igreja, da liberdade de consciência, da liberdade de educação. Primeiro, na Universidade Católica, a que a sua vida está tão intensamente ligada, depois na criação do Colégio de S. Tomás, o P. João Seabra é um vulto da luta pela liberdade de educar para a verdade e na verdade, razão pela qual o Instituto de Estudos Políticos o quis levantar como exemplo à admiração dos mais novos e dos vindouros, para que dêem continuidade ao seu combate. E ainda, do mesmo júri, em termos mais pessoais:

A inteligência, a eloquência, são dons, mas a generosidade de dispor totalmente de si próprio, a coragem de suportar a adversidade, a convicção contagiante na misericórdia de Deus, o entusiasmo que põe em tudo o que faz, são fruto da sua determinação

O Padre João é um grande crente e um grande pai, uma pessoa que se preocupa com o educar. Vemos que as pessoas quando falam do Padre João se lhes ilumina o olhar.

Partilho também pequenos excertos de vários testemunhos de amigos, irmãos, discípulos que representam desta forma anónima tantos outros que aqui poderia referir:

A fé que o Padre João sempre nos testemunhou não veio apenas das suas brilhantes lições mas sobretudo da sua “visível” comunhão com Cristo (muitas vezes iluminada pelo profundo sentido e razoabilidade das suas lições, outras vezes pelos seus gestos de caridade e de oração) e pela sua independência, pela sua liberdade relativamente ao “mundo”.

O Padre João marcou uma geração de alunos da Universidade Católica com a sua fé, inteligência e carisma. Numa idade em que muitas das nossas preocupações eram superficiais e temporais, o Padre João Seabra levantou o nosso olhar para aquilo que é divino e eterno.

Apesar da inequívoca falta de tempo, o João, irmão, foi e ainda é, um esteio na união da nossa família, sempre pronto para acudir a qualquer um que necessita de apoio e preservando e perseverando na união da família. Deve-se também a ele a ainda hoje constante reunião da família, em muitas ocasiões.

Num tempo em que a Igreja se sente minoritária, o Padre Seabra nunca pediu desculpa por ser quem é ou licença para se meter na vida de quem encontra.

Não seria possível que tanta gente o seguisse, apesar de não ter o melhor dos feitios, se a fé que testemunha não fosse tão correspondente, respondendo ao que as pessoas procuram, umas vezes conscientemente, outras vezes inconscientemente.

João Seabra, jovem brilhante, fogoso e apaixonado, mergulhou em Cristo na Igreja. Sem perder as suas maneiras e estilo, acima de tudo, e por dentro de tudo, ele pensa como a Igreja, fala na Igreja, vive a Igreja. Colocar a palavra «Padre» na sua assinatura é um símbolo desta identidade radical.

A inteligência, a eloquência, são dons, mas a generosidade de dispor totalmente de si próprio, a coragem de suportar a adversidade, a convicção contagiante na misericórdia de Deus, o entusiasmo que põe em tudo o que faz, são fruto da sua determinação de se ultrapassar todos os dias para se pôr ao serviço de Jesus e da sua Igreja!

Resta-me agradecer ao Instituto de Es- tudos Políticos pela iniciativa de em tão boa hora atribuir ao Padre João o prémio Fé e Liberdade e, principalmente, agra- decer ao Padre João pela sua paternidade e companhia absolutamente decisivas na vida de tantos de nós.

Muito obrigado, Padre João.

 
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