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Portugal em traços fundamentais

 

Portugal em traços fundamentais

 

Miguel Real acaba de dar à estampa Traços Fundamentais da Cultura Portuguesa (Planeta, 2017), que constitui um belíssimo repositório de reflexões, na linha de um percurso sério e persistente, de análise e estudo, que o autor vem seguindo.

Miguel Real
Traços Fundamentais da Cultura Portuguesa
  Planeta, 2017

Guilherme d’Oliveira Martins Guilherme d’Oliveira Martins

Membro do Conselho de Administração da Fundação Calouste Gulbenkian. Membro do Conselho Editorial de Nova Cidadania

N a linha de obras anteriores, temos agora uma síntese, onde se apresentam os “traços fundamentais” de uma cultura plena de diferenças e contradições, que alguns procuram simplificar, mas insuscetíveis de redução, que, a existir, tornar-se-ia caricatura. Uma cultura de “melting pot”, como a nossa, não pode deixar de se afirmar numa tensão entre o que se mantém e o que muda, entre os que ficam, os que partem e os que chegam. De facto, como Eduardo Lourenço ou José Mattoso têm ensinado, na linha de Garrett e Herculano, da geração de 1870 e das correntes críticas do século XX, para Miguel Real: “não existe uma essência identitária de Portugal, uma noção metafísica sintetizadora da existência de Portugal e identificadora da sua história...” – e “um dos maiores equívocos dos teóricos da cultura portuguesa tem sido a insistência, ao longo dos tempos, mas fortemente desde o final da monarquia, em 1910, na busca de um conceito absoluto, transcendente, exclusivo, excecional e extraordinário, definidor da identidade nacional ou do homem português”. Este é o ponto de partida, não só para compreendermos a diversidade e a complexidade de quem somos, mas também para nos mantermos abertos às diferenças – sobretudo considerando que a nossa cultura está na génese de outras culturas, geradas a partir de uma língua falada em todos os continentes, que se enriquece através da coexistência de várias outras línguas (como os crioulos), correspondentes às zonas geográficas onde o português é língua oficial... Deste modo, o futuro não pode deixar de ser encarado como um campo aberto à diversidade e de multiplidade cultural, onde coexistem vários e naturais polimorfismos... De facto, não podemos esquecer as sequelas de ressentimento (para que nos alerta o autor, na senda de Eduardo Lourenço) nos Estados e povos colonizados, “que ora legitimamente desconfiam do afã lusófono”. Por isso, a “Lusofonia não pode repetir a história, renovando os vícios dos diferentes desencontros históricos havidos em séculos passados”. Daí a necessidade de uma “paisagem política nova” – que considere o alerta do célebre título do ensaio de Maria Manuel Baptista: «a lusofonia não é um jardim ou a necessidade de “perder o medo à realidade e aos mosquitos”»... No fundo, a saudade e a morabeza, bem como as diversas idiossincrasias resultantes dos diálogos interculturais, fazem parte integrante de um modo de ser complexo e heterogéneo do mundo da língua portuguesa...

Longe de uma explicação de destino transcendente, não somos nem melhores nem piores que outros – nem um segundo povo eleito de Deus, da herança judaica, nem depositários exclusivos da saudade (de Pascoaes), nem vocacionados para o Quinto Império sebastianista ou para a Terceira Idade de Joaquim de Flora... Portugal é um cadinho de múltiplas influências. Está aí a sua “maravilhosa imperfeição”. E quando encontramos em Fernando Pessoa as contradições insanáveis, que a heteronímia alberga, verificamos a importância da coexistência das diferenças que enriquecem a nossa cultura e das culturas que a animam. “A cultura é uma espécie de biblioteca, de ideal, em que nós pensamos separar aquilo que ainda perdura na memória, ainda atuante, daquilo que está morto”. Eis o ponto em que nos encontramos e que permite compreendermos que António Sérgio e Jaime Cortesão correspondem a faces de uma mesma exigência de compreensão da realidade que nos cerca. Sérgio alerta-nos para as condições materiais e para o conflito entre a fixação e o transporte, que marca o patriotismo prospetivo – contra o fatalismo do atraso. Cortesão não nos deixa esquecer, ao lado da razão, o anseio espiritual e emotivo. E sabemos bem, lendo os textos fundamentais de ambos e confrontando-os entre si e com a moderna historiografia, como Portugal e os Portugueses, apesar de todas as vicissitudes, continuam na luta, combatendo a mediocridade e a irrelevância. País suspenso no tempo? As elites alimentam uma cultura dúplice, ora escolástica e contra-reformista; ora europeia, reformista e aberta à modernidade; enquanto a cultura popular persiste vernacular, nativa e rústica. E a psicanálise mítica do destino português invoca a ciclotimia do sucesso e do fracasso, a força do centralismo da Arcada e de S. Bento e as resistências à autonomia e a descobrir e inovar. Afinal, perante as dificuldades encontramos energias desconhecidas, que se relacionam com a sobrevivência. Mas a que se deve o atraso estrutural? O debate sobre os estrangeirados e sobre a fragilidade das elites não perdeu atualidade. A natureza complexa da nossa realidade cultural leva-nos a que os elementos vários que a constituem favoreçam a formação de uma vontade comum, apesar dos egoísmos. E o pessimismo nacional? Será que o velho do Restelo de Camões ou Sá de Miranda na carta a D. João III são demonstrações insanáveis de uma incapacidade congénita para nos superarmos? E estaremos condenados a ser um “povo póstumo”? Se virmos bem, os melhores momentos da nossa existência coletiva (1415-1539) e a durabilidade do projeto Portugal deveram-se não ao improviso, mas à determinação e à definição de metas de largo prazo... Leia-se a «Crónica dos Feitos da Guiné» e perceba-se que não há aí espontaneísmo ou loucura... Há capacidade de planear e de mobilizar vontades.

A anteceder o prefácio de José Eduardo Franco, está transcrito o poema de Ruy Belo “O Portugal Futuro”. “O Portugal futuro é um país / aonde o puro pássaro é possível...”. O poeta diz que, chamem o que chamarem, “Portugal será e lá serei feliz / Poderá ser pequeno como este / ter a oeste o mar e a Espanha a leste / tudo nele será novo desde os ramos à raiz”. Em lugar do pessimismo sem horizonte, é possível a determinação e a continuidade. Para tanto, há que cultivar o espírito crítico e conhecer a história. Os mitos tornam-se construtivos, quando compreendidos reflexivamente. Os judeus, a Inquisição, os jesuítas, Camões, o sebastianismo, Vieira, Pombal, a ideia de nação superior e inferior, o pessimismo nacional, a decadência, o país suspenso no tempo como lugar cultural e mental encantado, o canibalismo cultural, os grupos fratricidas e parricidas – são fatores que nos obrigam a perceber a identidade nacional limitada nas condicionantes de nove séculos de história. «Por via da Europa – honra lhe seja feita -, e não por gradual esforço nosso, não são apenas dois ou três pensadores portugueses a exigirem o império da tolerância, mas as próprias instituições sociais, e antes de mais o Estado e a Igreja Católica...». E assim, preparamo-nos para enfrentar o século XXI, libertando Portugal de um passado económico, político e cultural que há meio milénio «sempre nos atrofiou as virtualidades».

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