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Marquês de Soveral

Marquês de Soveral

A sua vida traz também a lição de que muitas vezes, não é preciso ter o poder político para influenciar – e bem – os destinos dos homens e dos Estados. E que a influência, bem exercida junto dos decisores, pode ser um magnífico trunfo ao serviço das boas causas.

O Marquês de Soveral:
Seu Tempo e Seu Modo
Paulo Lowndes Marques

Texto Editores, Lisboa, 2010

POR JAIME NOGUEIRA PINTO

Professor do ISCSP da UTL

O Marquês de Soveral: Seu Tempo e Seu ModoÉ para mim motivo de honra e prazer apresentar este livro do meu amigo Paulo Marques, sobre a vida, o tempo e o modo do Marquês de Soveral. Também porque este livro começou por ser uma ideia e um projecto de outro muito querido, admirado e desaparecido Amigo – o Embaixador Alberto Franco Nogueira. Alguém que também me ensinou, pela palavra e pelo exemplo, a importância do patriotismo fundamentado na realidade da História, um patriotismo que por ser esclarecido, não deixa de ser vital e essencial.

O Paulo Marques é, também, um patriota esclarecido, um português que, como muitos de nós, se orgulha do seu serviço militar (foi fuzileiro especial no Norte de Angola) e que ao longo da sua vida familiar, profissional e social, sempre se regulou por códigos de lealdade, de verdade e de coerência entre o pensamento e a acção, de serviço aos valores religiosos e cívicos em que acredita.

Com este livro prestou outro serviço. Estamos perante uma “biografia à inglesa”, bem fundamentada, bem pesquisada e escrita com elegância, combinando a inside interpretation da História Geral com o detalhe de petite histoire que enquadra e explica melhor a outra, a grande História.

Luís Maria Pinto de Soveral viveu entre 28 de Maio de 1851, quando nasceu na Quinta de Sidrô, S. João de Pesqueira, e 5 de Outubro de 1922, ano em que morreu em Paris. Foram setenta e um anos – muitos para uma época de expectativas de vida mais modestas que as nossas. Viveu sobretudo e também em tempo de grandes mudanças na política, nas ciências, na técnica, nas artes.

Na Europa, foi o período entre as monarquias constitucionais das sociedades oligárquicas dos meados do século XIX e o tempo das revoluções de massas totalitárias do pós-Grande Guerra: Soveral morreu cinco anos depois da revolução de Outubro, e duas semanas antes da Marcha sobre Roma.

Também nas máquinas e nas técnicas este tempo mudou o quotidiano: foi o tempo da invenção da lâmpada eléctrica, do automóvel, do avião, do telefone, da TSF, do cinema; da cobertura ferroviária dos quatro continentes, de Pasteur e Madame Curie, dos pioneiros do rádio e do nuclear, dos jornais de opinião – um tempo cujos inventos despertaram nos escritores a paixão do futuro (de H.G. Wells a Julio Verne, ou ao cepticismo irónico de Eça).

Literariamente, é a passagem do romance romântico do século XIX francês e inglês, o romance de Stendahl, Jane Austen, Balzac, Dickens, para os de Flaubert, Zola, Proust, Joyce; com os grandes russos – Tolstoi e Dostoiewsky – por ponte.

E foi uma idade oiro da chamada civilização burguesa do Império e da Indústria, quando a Europa estendeu o seu domínio ao resto do mundo, a idade da última partilha de terras do globo, o continente africano, consagrada no Congresso de Berlim. Mas foi também o tempo das primeiras revoluções, dos anarquistas, dos niilistas e da vida dos fundadores espirituais do século XX – Marx, Nietzsche e Dostoiewsky.

Em Portugal, estes setenta anos também foram de vida intensa e de mudança: começaram na Regeneração, com o golpe militar de Saldanha que pôs termo ao liberalismo convulso e o estabilizou no bipartidarismo imposto por Fontes Pereira de Melo. Depois, a partir do Ultimato e do 31 de Janeiro, serão trinta anos atribulados, em que aos poucos a violência irá reentrando nos usos e costumes da política nacional. Dois regimes, muitas dezenas de governos, uma primeira industrialização e modernização do país, duas importantes gerações literárias e artísticas – a geração de Setenta e a época do Orfeu, de Eça a Fernando Pessoa.

Luís de Soveral é um homem deste tempo, um homem do seu tempo que não se limitará a vivê-lo de um modo passivo. Não foi o “convidado ocioso da existência”, que poderia ter sido por nascimento e estatuto. Antes, foi um personagem activo, dinâmico, que agiu e reagiu ao meio e aos seus estímulos, que foi determinante no fazer da sua vida e da sua história, segundo convicções e interesses que defendeu.

O Marquês de Soveral: Seu Tempo e Seu ModoÉ esta história que o Paulo Marques nos conta: depois de uma curta passagem pela Marinha de onde quis sair e acabou por sair, Soveral aparece-nos com um diploma de Doutor em Ciências Políticas e Administrativas por Lovaina, com o qual concorre à carreira diplomática.

Aprovado, é nomeado adido para Viena, onde fica um ano e meio; sai de lá promovido a segundo secretário de Legação e vai para Berlim, onde serve com vários embaixadores – o conde de Rilvas, o marquês de Penafiel e Vicente Pindela.

Berlim é então o centro daquele II Reich bismarckiano, que celebra as vitórias sobre a Áustria, a Dinamarca e a França, que fizeram da Alemanha unida o primeiro poder militar europeu. É também a terra dos grandes carteis e das nascentes dinastias da indústria e dos negócios que Thomas Mann havia de imortalizar nos Budenbroke. Estava-se também em plena Kultur Kampf, entre o Estado e a Igreja católica.

Era um lugar privilegiado de observação da cena europeia. Soveral soube entendê-lo e, na sua correspondência para o Ministério, vê-se que se foi apercebendo do jogo dos equilíbrios e da crescente rivalidade e inimizade anglo-alemã e que testemunhou a modernidade de Bismarck, pioneiro da concertação social e do intervencionismo do Estado forte como árbitro da conflitualidade dos grupos sociais.

Paralelamente, o jovem segundo secretário não deixa de se integrar na vida social local e iniciar uma longa carreira de destroçador de corações.

De Berlim, Soveral foi para Madrid, onde ficou quatro anos. Ali forjou as suas convicções sobre a dualidade peninsular e a importância da aliança britânica. E terá despertado uma principesca paixão – da Infanta D. Maria Eulália de Bourbon, irmã mais nova de Afonso XII – mal casada com o duque de Montpensier. Ela e Soveral escreveram-se em francês até muito tarde, com uma ternura e uma intimidade que podia deixar adivinhar mais qualquer coisa.

Em Portugal, o jovem diplomata fez a vida de um homem com mundo, da sua classe e da sua geração. É sócio do Turf e da Parada, e integra-se no grupo dos Vencidos da Vida, onde estão, entre outros, Ramalho, Eça, Oliveira Martins, o marquês de Ficalho e Junqueiro. Eça viria a casar com D. Emília de Castro Pamplona, filha do conde de Rezende, senhora que tivera um namoro prolongado com Soveral.

E finalmente Londres, onde chega em 1885, como Encarregado de Negócios. Se Berlim é a praça forte e a capital do Continente, Londres é a capital do mundo.

Daqui partem para todo o globo os couraçados, cruzadores e canhoneiras da Royal Navy, que patrulham as rotas do Império e punem os povos e chefes relapsos com as suas peças de artilharia ou a sua infantaria de Marinha. E na austera corte de Vitória, celebram-se essas glórias do Império, da Índia à África que acaba de ser dividida em Berlim. Pelos escritórios e Bancos da City correm os capitais que alimentam as minas, as indústrias, os caminhos-de-ferro, os governos de dois hemisférios.

A Grã-Bretanha é a velha aliada de Portugal, cuja protecção político- social pagámos com tratados e facilidades económicas. Mas neste auge do imperialismo europeu em que se talham territórios na África Austral, a Inglaterra vai entrar em choque connosco por causa do famoso mapa cor-de-rosa. E, imperialista até ao fim, Londres apresentará um ultimato baseado na razão da força para resolver o conflito. Salisbury montara o sistema, avisara as potências para não se meterem e pusera a esquadra de prevenção em Zanzibar, para ocupar a ilha de Moçambique, capital administrativa da província; e em Gibraltar, para bloquear a entrada do Tejo.

O Governo cedeu, o país estremeceu de fúria, de dor e de vergonha. O Ultimato gerou, para Basílio Teles, um sentimento de abalo igual ao das invasões francesas; para Eça de Queirós foi “a maior crise desta geração”. Foi a geração do Ultimato que fez a República. Aliás Soveral dá conta do risco para a Coroa portuguesa aos seus interlocutores britânicos. Mas Salisbury mostrou-se arrogante e intransigente.

Passada a crise do Ultimato, chega o tempo áureo de Soveral em Londres. A sua especial posição vem-lhe da amizade com o Príncipe de Gales, o futuro Eduardo VII, a quem cativara com a atitude directa e a conversa divertida. O futuro Rei abrira o seu círculo de amigos a alguns importantes novos- ricos, incluindo judeus e estrangeiros. Soveral beneficiou deste new look e tornou-se companheiro do príncipe, graças também à recomendação do rei D. Carlos, tornando-se um personagem central da sociedade e da História.

Em finais de 1895, é nomeado ministro dos Negócios Estrangeiros no governo de Hintze Ribeiro. Ficou um ano e meio no posto, sob o fogo de vários sectores.

Acusavam-no de snob, de vendido à Inglaterra, irritavam-se com a sua elegância, com os seus modos, com o seu sucesso. A queda do governo liberta- o e o novo Presidente do Conselho, José Luciano de Castro, manda-o de volta para Londres.

Estamos perante uma “biografia à inglesa”, bem fundamentada, bem pesquisada e escrita com elegância, combinando a “inside interpretation” da História Geral com o detalhe de petite histoire que enquadra e explica melhor a outra, a grande História

O Marquês de Soveral: Seu Tempo e Seu Modo

Depois do regresso a Londres, Soveral jogará um papel decisivo em que vai valer muito a sua relação especial com o príncipe de Gales, para ajudar a proteger os interesses portugueses na África Austral, contra uma perigosa conjugação de ambições e cobiças: da Chartered Company, de Cecil Rhodes, mais ou menos protegida pelo poder britânico, dos alemães, espreitando as debilidades financeiras do Estado português, e de alguns sectores da política e da opinião pública de Lisboa convencidos de que talvez não fosse má ideia vender as colónias.

E pior de tudo, avançando para um entendimento entre Londres e Berlim para a partilha de Angola e Moçambique, num momento em que, com a Segunda Guerra dos Boers à porta, os ingleses, para estarem com as mãos livres de qualquer pressão alemã, parecem dispostos a aceitar tal acordo, em detrimento do velho e frágil aliado.

Soveral, que apesar do secretismo dos entendimentos tem informação privilegiada sobre o tema, actua nos bastidores, informa o Rei em Lisboa, fazse valer da sua proximidade e intimidade com o príncipe de Gales. É em grande parte graças a ele que se consegue o tratado de Windsor, de 1899, que derroga implicitamente os acordos anglo-germânicos de 1898, garantindo a integridade de Angola e Moçambique como possessões portuguesas. O Rei faz então Soveral, marquês de Soveral e testemunha-lhe a gratidão do país.

Quando a rainha Vitória morre e Eduardo VII sobe ao trono, esta amizade e intimidade com o novo monarca dará ainda mais frutos, que Soveral sempre usará e cultivará para os interesses do país.

A par do serviço público, que nunca descurou e que Paulo Marques aqui conta com escrúpulo e detalhe, bem enquadrado na geopolítica do tempo, há outros lados da vida do biografado, mais mundanos e fúteis mas não menos interessantes. Dandy, grande conversador e charmeur, teve sucesso com as mulheres por todas as capitais por onde passou. Na sociedade inglesa disputavam-no, sabendo do favor real.

Amigo sincero e leal do Rei, Soveral acompanhou a agonia da Monarquia, depois da fragmentação partidária, da tentativa kaiseriana de D. Carlos com o Governo de João Franco, do regicídio e da fuga de D. Manuel perante a revolução de Outubro. Proclamada a República, deixou o seu cargo, mas manteve a influência. E continuou a servir D. Manuel e a família real no exílio, acabando por se envolver ou ser envolvido, nem sempre com o melhor sucesso, nos escaninhos e viravoltas da política monárquica do tempo.

Morreu de um cancro no esófago, consequência, parece, do seu abuso do charuto. Como aos seus admirados príncipes de Inglaterra, o fumo encurtara- lhe a vida, mesmo assim longa. Servira o seu país e as suas convicções, vivera elegantemente tempos difíceis, e morria no exílio, sem amargura nem ressentimento.

A sua vida traz também a lição de que muitas vezes, não é preciso ter o poder político para influenciar – e bem – os destinos dos homens e dos Estados. E que a influência, bem exercida junto dos decisores, pode ser um magnífico trunfo ao serviço das boas causas.

Neste livro, o Paulo Marques combina excelentemente o fio narrativo da vida de Soveral, a descrição dos ambientes sociais e culturais do tempo e do lugar e o pano de fundo da política e da grande política internacional. Tem experiência, mundo e créditos para o fazer e, sendo um luso-britânico, conhece muito bem os dois lados deste espelho. Com arte, inteligência, sensibilidade e sentido de humor, fixa, mesmo nos detalhes, a essência da história pessoal e colectiva. E dá-nos uma magnífica obra que se lê de um fôlego com agrado para o espírito e ganho para o saber.

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