|
|
|
Império do Meio, “perigo amarelo” ou
aliança estratégica? No seu último livro, Da China, Henry Kissinger
nsaia uma explicação da ascensão da China que vai para além do realismo
iplomático: é também a confissão da paixão de uma vida.
|
|
|
Henry Kissinger
On China
Penguin, 2011
|
José Manuel Fernandes
Jornal Público, Membro do Conselho Editorial de Nova Cidadania
Em 1990, quando o mundo vivia a ilusão da
“nova ordem internacional” que se seguiu à
queda do Muro de Berlim, a economia da China
valia 16 vezes menos do que a dos Estados
Unidos. Em 2011, numa altura em que o Ocidente
se debate com uma crise que só por piedade
designamos por “económica e financeira”, a economia
norte-americana já só vale 2,5 vezes a chinesa. Esta, por seu
turno, já é maior do que a economia japonesa e alemã. Chegou
também o tempo em que é a China a chamar a atenção dos Estados
Unidos e da União Europeia para que se comportem de
forma financeiramente responsável. Dificilmente poderíamos
imaginar, em 1990, esta evolução. E não apenas por razões
económicas: em 1989 a repressão da revolta dos estudantes
que se tinham reunido na Praça Tiananmen parecia condenar
a China ao isolamento político.
Se dermos um salto de outros 20 anos para trás, até 1970,
encontramos um quadro ainda mais diferente. Contudo foi
nessa altura que Henry Kissinger, então conselheiro do Presidente
Nixon, iniciou a aproximação diplomática que o levaria
a fazer, há exactamente 40 anos, uma primeira visita a
Pequim. Foi uma viagem realizada em segredo, mas apenas a
primeira das mais de meia centena de idas à China entretanto
realizadas pelo antigo homem-forte do Departamento de Estado.
Kissinger, que não é apenas um diplomata e um estadista na reforma, é também um académico e estudioso das relações
internacionais, associa uma experiência sem paralelo à elaboração
do intelectual quando analisa o seu país preferido, a
China. Sem deixar de ser um “realista” sempre nos limites do
cinismo político.
“Da China”, a mais recente obra deste prolífico autor, não se
limita porém aos últimos 40 anos das relações sino-americanas
– proporciona-nos, simultaneamente, um interessante (e
controverso) tour d’horizon sobre a história das relações da
China com o resto do Mundo desde a sua unificação, há mais
de dois milénios, por Qin Shihuang, o imperador que nos legou
o Exército de Terracota. Desde essa época que os chineses
se vêem como a civilização superior e insuperável localizada
no centro do mundo conhecido. Até ao choque provocado, no
século XIX, pelas guerras com a Inglaterra e outras potências
ocidentais, que abriram uma crise identidade que só agora começa
a ser ultrapassada, a China sempre se relacionou com o
mundo que lhe era exterior como sendo terra de bárbaros –
bárbaros que lhe deviam tributo mas com os quais nada havia
a aprender. A própria designação chinesa para China – Império
do Meio – diz tudo.
O choque entre o Ocidente
e o Oriente que se deu a
partir do início do séc. XIX
foi o choque entre poderes
que utilizavam tecnologias
militares com diferentes
graus de desenvolvimento,
mas também o choque de
culturas que olhavam e
olham para a guerra e para
as relações internacionais
de forma distinta
Xadrez ou wei qi?
Muitos historiadores radicam os males da China na sua tendência
milenar para só se ver a si própria. No século XV, altura
em que os imperadores mandaram regressar as frotas imperiais
e fecharam os portos, condenaram o país ao isolamento
e ao atraso relativo. Quando os comerciantes britânicos reabriram,
ao tiro, as rotas comerciais, encontraram um país que
ainda se tinha por superior – é deliciosa a forma como Kissinger
descreve o confronto entre a urgência dos diplomatas
vindos de Londres e a estrita obediência dos mandarins às regras
protocolares… – mas que já nem sequer tinha força para
se defender dos intrusos. A ideia de que era auto-suficiente
revelou-se fatal para a China.
Kissinger olha porém de forma relativamente benevolente
para as decisões dos governantes que levaram a China a uma
posição de decadência relativa. Dois milénios de história chinesa
ter-lhes-iam ensinado que, mesmo quando enfrentavam
exércitos estrangeiros vitoriosos, os novos senhores eram depois
“absorvidos” pela China e pela cultura chinesa. O Império
do Meio podia ser submetido por hordas vindas do exterior,
mas depois impunha-lhes a sua cultura e as suas tradições. De
resto a última dinastia, a dinastia Qing que teve de lidar com os ocidentais, era de origem mongol. Fiéis ao confucionismo,
pacientes, os chineses nunca procuraram construir um império
no sentido ocidental e expansionista do termo, procuraram
antes garantir a segurança dos vastíssimos territórios centrais
abarcados pelas bacias do Yangtsé e do Rio Amarelo, regiões de
terras férteis capazes de alimentar uma enorme população.
O choque entre o Ocidente e o Oriente que se deu a partir do
início do século XIX, depois de uma canhoeira inglesa ter devastado
a foz do rio das Pérolas, não foi apenas o choque entre
poderes que utilizavam tecnologias militares com diferentes
graus de desenvolvimento – foi também o choque de culturas
que olhavam e olham para a guerra e para as relações internacionais
de forma distinta. Kissinger contrasta os ensinamentos
de dois clássicos – um chinês, A Arte da Guerra, de Sun Tzu,
e, outro ocidental, Da Guerra, de Carl von Clausewitz – para
expor essas diferenças, mas ilustra ainda melhor o seu ponto
quando recorre a uma comparação entre o xadrez e o wei
qi (ou go, como é mais conhecido). No xadrez o objectivo é
conseguir a vitória total matando o rei do adversário; no wei
qi pretende-se obter uma vantagem relativa através do cerco
às peças do adversário. “Se o xadrez tem a ver com a batalha
decisiva, o wei qi tem a ver com a campanha prolongada”, escreve
Kissinger. “O xadrez ensina os conceitos clausewitzianos
de ‘centro de gravidade’ e de ‘ponto decisivo’ (…). O wei qi
ensina a arte do cerco estratégico”.
A preocupação com o cerco é natural num império “do Meio”
rodeado por poderes hostis. A preocupação será ainda maior
se pensarmos no carácter essencialmente sedentário desta nação
de camponeses obrigada a enfrentar, ao longo de milénios,
as ameaças de povos nómadas vindos do Norte (a muralha da
China tem mais de dois milénios). Mais: “para os sábios clássicos
da China, o mundo nunca poderia ser conquistado; governantes
sensatos apenas podiam esperar harmonizar-se com
os seus inimigos. Não havia Novo Mundo para povoar, nem redenção
à espera da Humanidade em costas distantes. A terra
prometida era a China e os chineses que lá estavam”.
O peso de uma história milenar
Kissinger radica pois nos “hábitos milenares de superioridade”
a forma como a China entrou na era moderna: acreditava na
relevância universal da sua cultura, mas não praticava o proselitismo;
era (ainda) o país mais rico do mundo, mas ignorava
o comércio externo e a inovação; tinha uma elite instruída e
competente, mas que foi incapaz de perceber o que de radicalmente
novo estava a acontecer a Ocidente.
O fim do Império e o advento da República não foi um processo
pacífico. A China foi sacudida por revoltas que fizeram
dezenas de milhões de mortos (talvez tantos como a I Guerra
Mundial). Vizinhos poderosos (a Rússia e o Japão) ocuparam
partes do seu território. Senhores da guerra repartiram o território
na linha da tradição sangrenta dos períodos inter-dinásticos.
E às batalhas do II Guerra juntou-se a guerra civil entre
nacionalistas e comunistas, de que estes acabariam por sair
vencedores.
Mesmo assim dificilmente se imaginaria um regime mais
diferente do da China Imperial do que a China Popular, proclamada
a 1 de Outubro de 1949 por Mao Zedong, Comunista
mas também nacionalista, Mao não desejava apenas restaurar
a glória da China, o seu milenar orgulho, queria ao mesmo
tempo construir uma China nova, que fosse uma imagem invertida da velha China. Adepto da revolução permanente, incapaz
de suportar a estabilidade e a concórdia, obcecado com
o controlo do poder, Mao queria também romper com o confucionismo
para colocar, no seu lugar, uma espécie de marxismo
chinês, um arrazoado de máximas cuidadosamente destiladas
para as páginas do Pequeno Livro Vermelho.
Uma coisa é colocar as opções
da diplomacia chinesa numa
perspectiva de longo prazo;
outra, bem diferente, é dar
sempre razão aos dirigentes
chineses, curvar-se a cada
página perante a sua superior
cultura, visão e inteligência
Contudo, como Kissinger nota logo nas páginas de abertura
deste seu livro, tudo na China vem carregado de história,
e poucos como Mao estariam tão conscientes do seu imenso
legado histórico. “Em nenhum outro país se poderia conceber
que um líder moderno iniciasse um importante empreendimento
nacional invocando princípios estratégicos com um
milénio de antiguidade – nem que pudesse esperar confiadamente
que os seus colegas compreendessem o significado das
suas alusões”, notou a propósito da forma como o líder chinês
defendeu a guerra contra a Índia (em 1962) baseando-se nos
ensinamentos de batalhas travadas 1300 anos antes.
Uma visão benevolente
O problema com Kissinger é que leva os seus raciocínios históricos
longe de mais. Uma coisa é colocar as opções da diplomacia
chinesa numa perspectiva de longo prazo, mostrando
como elas reflectem não só uma sabedoria milenar como uma
cultura distinta da nossa; outra coisa bem diferente é dar sempre
razão aos dirigentes chineses, curvar-se a cada página perante
a sua superior cultura, visão e inteligência. Por exemplo:
é pertinente associar a consciência de um risco de “cerco estratégico”
à forma como a China se deixou envolver na guerra
da Coreia ou ao modo como reagiu à aliança formal entre a
União Soviética e o Vietname, mas é duvidoso que isso chegue
para justificar acções políticas de efeitos ainda hoje muito
duvidosos, como a invasão do Vietname em 1978, em que o
Exército Vermelho se mostrou impreparado para enfrentar os
experientes vietnamitas e sofreu baixas pesadíssimas.
No entanto, Kissinger inclina-se sempre face a uma alegada
superior inteligência estratégica dos líderes chineses, de Mao
a Hu Jintao, passando por figuras tão diferentes como o subtil
Zhou Enlai, o determinado Deng Xiaoping ou o indiferente
Hua Guofeng (o líder que, formalmente, sucedeu a Mao). Já a
diplomacia soviética é ridicularizada amiúde e não são poucas
as vezes em que também se distancia da linha seguida pelos
Estados Unidos. Há como que um fascínio indisfarçável pela
sabedoria atribuída a sucessivas lideranças chinesas.
Esta benevolência vai ao ponto de Kissinger mostrar alguma compreensão pelas escolhas mais controversas das lideranças
chinesas, levando-o a apresentar a sua história recente a uma
luz quase sempre favorável. Atribui, por exemplo, apenas 20 milhões
de mortos à fome generalizada causada pelo Grande Salto
em Frente, quando a bibliografia converge na ideia de que essa
campanha louca lançada por Mao Zedong – que Kissinger trata
como “o rei filósofo”… – causou 40 milhões de mortos. Distancia-
se da mais recente grande biografia do líder chinês – Mao:
A Historia Desconhecida, de Jung Chang e Jon Halliday, edição
portuguesa da Bertrand – classificando-a como “controversa”,
se bem que “intelectualmente estimulante”. De uma forma geral
tem um olhar compreensivo para com o ditador, a quem credita
o mérito de ter conseguido manter a China unida e capaz de
emergir como uma superpotência, subscrevendo sem grandes
estados de alma a tese oficial chinesa de que os crimes de Mao
foram “males necessários” à transformação do país.
Bombardear nos dias ímpares
Mesmo assim este livro revela-nos muitos pormenores – em
especial das negociações directas entre os Estados Unidos e a
China – cujo significado ilumina a nossa percepção da peculiar
cultura do velhíssimo Império do Meio. Um dos mais curiosos
refere-se a um dos conflitos armados entre a China Popular e
o regime de Taiwan, antiga Formosa. De facto os nacionalistas,
ao contrário da percepção habitual, não controlam apenas a
sua ilha, pois detêm também um conjunto relativamente vasto
de pequenos ilhéus quase costeiros. Estes ilhéus ficam a apenas
algumas centenas de metros da China continental e, do
ponto de vista militar, há muito que poderiam ter sido tomados
pelo poderoso Exército Vermelho. É certo que desde muito
cedo os Estados Unidos posicionaram uma das suas esquadras
na região, gesto destinado a mostrar que estavam dispostos a
defender Taiwan. Pequim, no entanto, nunca desistiu da sua
política de “uma só China”, o que teve diferentes manifestações
ao longo das mais de seis décadas que decorreram sobre
o triunfo dos comunistas. Numa das várias crises no estreito da
Formosa (a de 1958), o Exército Vermelho desencadeou uma
operação de bombardeamento contra duas dessas ilhas, Quemoy
e Matsu, com uma particularidade: só eram disparados
tiros aos dias ímpares. Muitos anos depois Zhou Enlai explicou
porquê: “O então secretário Dulles [o responsável pela política
externa no tempo do Presidente Eisenhower] queria que
Chiang Kai-shek [o líder da China nacionalista] abdicasse das
ilhas (…). Chiang não estava disposto a fazer isso. Também o
aconselhámos a não retirar de Quemoy e Matsu.
Aconselhámo-lo a não retirar fazendo fogo de artilharia
– isto é, nos dias ímpares bombardeávamolos
e não os bombardeávamos nos dias pares. Nem
nos feriados. Assim eles entenderam as nossas intenções
e não retiraram”.
Tudo é extraordinário nesta declaração, ou nesta
confissão, de Zhou. Primeiro, o método: bombardear
em dias marcados. Depois, o objectivo:
apoiar uma pretensão territorial que contrariava a
política oficial chinesa. Por fim, a estratégia: conseguir
estabelecer pontes de diálogo tácito com
um arqui-inimigo numa linguagem que apenas
os chineses entenderiam. Compreende-se que,
confrontado com estas formas de “saber fazer”,
Kissinger se renda perante o que classifica como “êxitos brilhantes” da diplomacia chinesa. Mais é bem mais
difícil é entender a forma como olhou, e ainda olha, para acontecimentos
como os de Tiananmen.
Um realista incorrigível
Realista incorrigível – tão realista que nem considera o cinismo
das suas posições –, Kissinger sempre defendeu que o massacre
não fora mais do que um percalço no caminho das reformas
prosseguido pelos líderes chineses. “Tal como a maioria
dos norte-americanos, fiquei chocado com o modo como o
protesto de Tiananmen tinha acabado”, escreve o antigo Secretário
de Estado. “Mas ao contrário da maioria dos norteamericanos,
tivera a oportunidade de observar a tarefa hercúlea
a que Deng metera ombros durante uma década e meia
para remodelar o seu país”. Por isso leu esse “episódio” de uma
forma simples: “os líderes chineses optaram pela estabilidade
política” e até ficaram “espantados pelas reacções do mundo
exterior”. O resto não terão passado de detalhes.
O corolário natural destas posições é a defesa, no capítulo
com que encerra o livro, da criação de uma comunidade no
Pacífico semelhante à que a geração do pós-guerra construiu
no Atlântico. “Poderia um conceito semelhante substituir ou
pelo mitigar as tensões potenciais entre os Estados Unidos e a
China?”, interroga-se Kissinger. Este conceito é desenvolvido
depois de fazer uma viagem no tempo e no espaço para citar
um famoso relatório elaborado em 1907 por um funcionário
superior do Foreign Office britânico, Eyre Crowe. Nesse relatório
explicava-se, sete anos antes da I Guerra Mundial, que
um confronto militar entre a Inglaterra e a Alemanha era inevitável,
fosse o que fosse que os diplomatas de ambos os lados
fizessem. Ora a última coisa que ele deseja que aconteça é
que, na China e nos Estados Unidos, ganhem força escolas de
pensamento que sigam a linha de Crowe, assim contribuindo
para pôr os dois países em rota de colisão.
Em contrapartida, o velho estadista gostaria de prolongar no
futuro os princípios daquele que considera ser o maior triunfo
da sua carreira diplomática, a aproximação entre a China e
os Estados Unidos durante a Presidência de Richard Nixon. De
resto algumas das partes mais interessantes do livro são aquelas
onde reconstitui o bailado encenado pelos dois países na
fase em que ainda não tinham relações formais – e que meteu
diplomatas americanos a correrem atrás de diplomatas chineses
durante uma passagem de modelos em Varsóvia… Se bem
que não encontremos grandes revelações (no seu anterior livro
Diplomacia, edição portuguesa da Gradiva, assim
como nos vários volumes de memórias, ainda inéditos
em Portugal, o autor já tinha revelado tudo),
o ponto fica: se em 1971/72 o par Nixon/Kissinger
não pretendia apenas tirar partido do conflito sinosoviético
para encontrar em Pequim um inesperado
aliado, sonhando antes com o estabelecimento
de uma relação de longo prazo baseada no respeito
mútuo e em consultas regulares, hoje um Kissinger
vê esse dia mais perto. Mais: a sua admiração pelos
líderes chineses é a admiração por iguais, isto é,
por estadistas que desprezam o idealismo e saber
praticar o jogo do poder. Como sempre crê que um
mundo cheio de Kissingers seria um lugar muito
mais tranquilo – o tamanho dos cemitérios nunca o
incomodou e continua a não incomodar.
Seguir(0)
|