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O silêncio prudente depois do início da Primavera Árabe e a
reorganização do status quo no Médio Oriente. No seu 63º aniversário, a
questão é: e agora Eretz1 Israel?
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Gabriel Fernandes
Mestrando do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa
Da última vez que algo semelhante aconteceu
no mundo árabe e no médio
oriente, Israel sobreviveu e consolidouse
como nação. Com a Crise do Suez
de 1956 foi reorganizado o status quo
com que se desenvolveram as difíceis
relações entre o Estado Judeu e os seus vizinhos. Os EUA
cessaram a ajuda à construção da grande Barragem de Assuão
no Nilo, pelo facto do Egipto ter encetado um processo
de compra de armas à Checoslováquia comunista. À política
expansionista da Internacional Comunista liderada pela
URSS, contrapunha-se a doutrina de contenção de Truman
no mundo maniqueísta da Guerra Fria. Enquanto os primeiros
tentavam recrutar influências nas ex-colónias dos impérios,
os americanos tentavam conter a ameaça comunista.
Os EUA já o tinham feito angariando para a NATO, parceiros
como a Turquia e a Grécia em 1952. Nasser era o instrumento
perfeito para unir os árabes a uma só voz e numa só
nação desde o Magreb ao Mashrek.A oportunidade era única
para a URSS expandir a sua influência até ao Sahel, para
numa segunda fase apoiar os movimentos independentistas
na África subsaariana. Nasser constituía a personificação da
centelha revolucionária e recipiente perfeito para protestar
e unir o mundo árabe contra as potências “imperialistas”
europeias que protegeram as lideranças dessas nações, e
que surgiram do desmembramento do Império Otomano
pós- II Grande Guerra. Foi também nessa altura que se deu a afirmação de Israel como potência regional.
“Não podemos ter esse vagabundo (Nasser) metido nas
nossas vias de comunicação”, disse então o ex-primeiro
ministro britânico Winston Churchill, sobre a nacionalização
do Canal de Suez. A França também pretendia punir
Nasser por apoiar os rebeldes separatistas na Argélia, enquanto
Israel queria garantir a circulação das suas mercadorias
por mar, pelo Canal de Suez de forma a não ficar
dependente apenas do Porto de Eilat no Golfo de Aqba.
O pacto mais ou menos secreto entre o Reino Unido, a
França e Israel perdeu a contenda, e Nasser foi glorificado
e aclamado como herói. Uma força das Nações Unidas ocuparia
o Sinai até à Guerra dos Seis Dias em 1967.
Nessa altura, no pós- II Grande Guerra, floresciam as independências
dos impérios coloniais, começadas por Gandhi
na Índia. Pode dizer-se que existiam motivações que
evoluíam ao encontro de dois paradigmas vigentes: entre o
Comunismo Soviético e as Democracias Liberais do mundo
ocidental, entre o Capitalismo de Estado e a Economia
de Mercado, entre o Mundo Livre dos EUA e seus parceiros,
e o Socialismo da URSS imposto e vigiado pelo Pacto
de Varsóvia. Hoje, o panorama parece ser bastante diverso,
cada actor parece querer seguir o seu próprio caminho de
acordo com as suas contingências e características próprias.
Enquanto esse movimento se desenvolveu em torno
de grandes personalidades como Nasser, numa onda transnacional,
hoje não se procura para já, um grande líder que
os una. Muitos observadores consideram que essa miragem
de um mundo árabe democrático está ainda muito
longe de ser alcançada. No entanto, antes da 3ª vaga da
Democracia, que começou em Portugal em 1974, também
se afirmava que os países católicos da Península Ibérica,
da América Central e do Sul, nunca conseguiriam adoptar
o modelo democrático ocidental. Enquanto há quase seis
décadas esse movimento de revolta visava unir um povo
numa grande nação árabe e em torno da figura carismática
e autoritária de Nasser, hoje os receios são outros. Esta
onda pode congregar desejos de união, não de um povo,
mas de um credo. O receio do mundo ocidental bem como
o de outros actores como Israel, é que esse mundo árabe
em convulsão adopte os paradigmas de governação disponíveis.
O temor que se transformem em teocracias islâmicas,
adoptando como modelo, o semeado pelo Ayatollah
Ruhollah Khomeini em 1979 e radicalizado pelo actual líder
do Irão Mahmoud Ahmadinejad.
O receio da “iranização” do mundo árabe
e o seu alastramento pelo Islão
Neste momento revolucionário tão especial que atravessa
o mundo árabe, os defensores da desejada Democracia, dos
Direitos Humanos, do “rule of law” e da Economia de Mercado,
temem que estruturas com décadas de organização
e presença no terreno como a Irmandade Muçulmana, iniciem
uma “iranização” do mundo árabe. A grande diferença
para os tempos de Nasser e Ben Gurion, é que o principal
suporte desse movimento internacional pode estender-se
desde o nosso vizinho Marrocos até locais remotos como
Xinjiang na China, ou mesmo à grande nação muçulmana
que constitui a Indonésia. Esse movimento pode congregar
povos e culturas tão diferentes como magrebinos, árabes, turcomanos, persas, malaios, afegãos, pashtun, e chineses
de entre outros. A influência que pode ter o acesso ao nuclear
pelo Irão pode subjugar as outras variantes religiosas
do Islão e não só, mas todos os movimentos que constituem
clivagens no mundo dos países maioritariamente muçulmanos,
tolerando apenas os credos que consideram inofensivos.
Á semelhança do que tem acontecido às minorias Coptas,
Judias, Católicas, Ortodoxas, Bah`ai, Drusos e mesmo
à mais numerosa variante islâmica Sunita, elas têm sido
perseguidas, ameaçadas e ostracizadas de forma violenta
pelos Xiitas. A perseguição religiosa tem sido praticada sistematicamente
pelas facções que detêm o poder no mundo
islâmico. Na Síria ou no Irão, por exemplo, se um chefe de
família judeu sair de um desses países e não regressar no
prazo previamente estipulado, toda a sua família é feita refém.
Inúmeros exemplos poderiam ser dados, como o caso
dos católicos no Iraque ou no Irão, os drusos no Líbano e na
Síria, ou os coptas no Egipto.
A abertura da fronteira de Gaza com o Egipto, após Mubarak
ser deposto, e a ausência de controlo efectivo de
pessoas e bens nas regiões em convulsão, tem constituído
uma das maiores ameaças à segurança de Israel e da ordem
internacional no médio oriente. Os fluxos em massa de
refugiados que transitam por estas regiões, ameaça e desequilibra
não só a capacidade de resposta das estruturas locais
existentes, bem como as dos seus vizinhos, sendo um
dos destinos mais procurados a Europa. É nesta anarquia
generalizada que se movem estruturas organizadas e financiadas pelo eixo Irão-Síria, que detém um conhecimento
e uma rede de ligações organizada, experiente, influente
e hierarquizada como sejam a Irmandade Muçulmana, o
Hamas ou o Hizzballah. Por outro lado, a condenação pelos
movimentos radicais islâmicos da morte de Bin Laden
demonstra que existe uma forte identificação entre estes e
a organização terrorista Al – Qaeda.
Israel, que no seu território congrega cidadãos de todos
os credos, vai ter de se desdobrar em múltiplas tarefas.
Manter a coesão interna, vigiar fortemente as suas fronteiras
e reorganizar caso a caso a sua política externa, sem
perder de vista a ameaça que constitui o eixo Irão-Síria,
são as prioridades. Israel afirma estar preparado, tanto
para uma terceira intifada que muitos previram que começasse
no Nakba Day (“15 Maio Dia da Catástrofe”) para
os palestinianos, bem como para um ataque nuclear de
Teerão. E agora, Israel?
1 Eretz Yisrael. (Heb. The land of Israel) A maximalist term used by some
right-wingers to refer to the borders of the ancient kingdom of Israel which
includes all of the West Bank and parts of Jordan in http://www.jewishvirtuallibrary.
org/jsource/glossE.html
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