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A Academia volta a colocar-se ao serviço dos desígnios da justiça, da
paz e da reconciliação nacional em Moçambique. Diríamos que volta, mas
no caso em apreço, de facto, coloca-se, tendo em conta que se trata da
primeira vez que uma iniciativa do género vai à estampa. De que se está a falar?
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Eliseu Bento
Jornalista, Mestrando em Ciência Política na Universidade Católica de Moçambique
As Universidades Católicas de Moçambique
(UCM), hospedeira, e de Portugal (UCP),
na concepção, através do seu Instituto de
Estudos Políticos, estão a concretizar o que
algum dia idealizaram consubstanciado
num Mestrado em Ciência Politica: Governação
e Relações Internacionais. Um parênteses aqui para
deixar escrito que a UCM tem a sua sede nesta cidade do
centro de Moçambique, uma cidade com um peso especifico
no cenário político deste país ancorado nas margens
do Oceano Índico. E este facto, diga-se de passagem, um
Mestrado em Ciência Política nesta região, pode ter nublado
alguns céus! Quem sabe! De qualquer maneira, o repto
está aí e só o tempo dirá o que ainda houver para dizer nos
próximos tempos.
Este curso de Pós-graduação e Mestrado, conforme préescrito
na filosofia global das instituições académicas em
questão, está concebido a partir do fundamento de que Moçambique é um país em processo de consolidação da democracia
em que o sentido de pertença à família moçambicana
começa a ganhar terreno na sociedade, facto que irá permitir
o seu processo de integração na Comunidade dos Países
da África Austral (SADC).
Cabe aqui recordar que Moçambique é um país que acaba
de sair de uma guerra que tirou a vida a mais de um milhão
dos seus cidadãos, destruiu infra-estruturas sociais e económicas
da maior dimensão que tinha além de ter deixado
marcas profundas no imaginário de muitas famílias.
Finda a guerra, em 1992, com a assinatura do Acordo Geral
de Paz em Roma, Moçambique iniciou então um processo
de reconstrução tendo em 1994 realizado as suas primeiras
eleições gerais e multipartidárias ganhas pelo partido
Frelimo que foi sucessivamente replicando as suas vitórias
até aos dias de hoje. Mas os desafios de consolidação dessa
paz, da justiça e da reconciliação ainda se colocam, principalmente
num contexto em que o país se abriu e se abre ao
mundo global em que vivemos.
É nesta esteira que a UCM e a UCP decidiram dar o seu
contributo juntando na mesma sala estudantes das mais variadas
áreas de formação básica desde advogados, professores,
funcionários públicos, jornalistas e outros, naturalmente
cada um com as suas próprias preferências políticas.
Tanto foi assim que em determinados momentos algumas
dessas tendências emergiam, à luz do dia. Ou seja, nem
sempre a fronteira entre a academia e essas preferências
ficava demarcada. Aí os docentes tinham que aparecer e
separar as águas.
A 27 de Agosto do corrente ano de 2011 receberam os
seus certificados de Pós-graduação os primeiros estudantes
deste Mestrado numa cerimónia que foi testemunhada pela
sua nova Coordenadora, a Professora Elisabete Azevedo-
Harman. Espera-se que dentro de alguns meses saiam então
os primeiros Mestres deste curso para o que os projectos de
teses já estão em elaboração e preparação.
Mas antes que isso propriamente aconteça, e tendo sido
alcançado um primeiro desiderato, com a Pós-graduação
dos primeiros estudantes, algum relance se impõe. Eis a razão
das presentes linhas.
Pelo menos três participantes aceitaram deixar registadas
as suas impressões nas linhas que se vão seguir.
David Ucama é advogado e docente universitário. Toma
parte neste curso e quando convidado a dizer alguma coisa
foi da opinião que este curso tem o mérito de criar um debate
político entre pessoas directamente ligadas à academia
e alguns políticos que aqui estão a buscar uma visão mais
científica da sua própria vida política, o que aliás perfila
como um dos objectivos do curso quando se fala de disseminar
e ancorar nos meios académicos e profissionais envolvidos
a matriz científica dos estudos sobre a Ciência Política
ao nível da Governação e das Relações Internacionais.
Está a ser gratificante, no entender de Ucama, a ligação
ao direito comparado ou da política comparada com outras
realidades.
Outra mestranda que deixou o seu testemunho chama-se
Paula Araújo, com formação básica em Relações Internacionais,
também docente universitária. Ela expressou-se nos
seguintes termos:
“O repto foi de enorme valor. Os valores da justiça, da paz e da reconciliação são universais e Moçambique, enquanto
país africano de independência relativamente recente e
com um conflito interno cujos protagonistas estão felizmente,
vivos, merece reflectir sobre estes temas e articula-los
com a sua realidade nacional. A abertura das abordagens,
o convite à discussão e à investigação permitiram dotar os
mestrandos de ferramentas fundamentais para melhor avaliar
Moçambique e o mundo e contribuir para a permanente
construção de um país mais justo e pacífico”.
Os desafios de consolidação
dessa paz, da justiça e da
reconciliação ainda se
colocam, principalmente
num contexto em que o país
se abriu e se abre ao mundo
global em que vivemos. É
nesta esteira que a UCM e
a UCP decidiram dar o seu
contributo juntando na
mesma sala estudantes
das mais variadas áreas
de formação básica desde
advogados, professores,
funcionários públicos,
jornalistas e outros,
naturalmente cada um
com as suas próprias
preferências políticas
Já Egídio Paulo, outro mestrando que aceitou dar o seu
palpite, defende que se trata de uma área nova na cidade
da Beira. Para ele, está aberta a possibilidade de cada um
dos estudantes, à sua maneira e na sua área, contribuir
para o processo de aprofundamento da democracia em
Moçambique.
Para tal, no entanto, parece importante o “aprendi a demandar,
a questionar” apregoado por Ucama, o que a Paula
prefere chamar “o convite à discussão e à investigação” e
o Egídio entende como o “desenvolvimento de atitudes e
competências feito de forma sistemática”, qualquer coisa
meio ainda por descobrir nas instituições académicas moçambicanas.
Outra marca neste curso tem sido igualmente a abertura
que o corpo docente vai dando aos estudantes para os abordarem
pessoalmente ou por correio electrónico colocando
dúvidas que vão sendo respondidas com toda a paciência.
Os estudantes deste Mestrado na cidade da Beira estão
profundamente maravilhados com a disponibilidade de material
bibliográfico muito ao critério dos próprios docentes
que o trazem consigo colocando-o dispor dos estudantes.
Está a ser, sem dúvidas, uma experiência “sui generis”
esta, para todos os intervenientes, as próprias instituições,
os docentes, os discentes e o corpo docente.
Particularmente interessante a presença do Reitor da
Universidade Católica de Portugal, Professor Braga da Cruz,
que lecciona o módulo sobre Regimes e Sistemas Políticos e
do Reitor da Universidade Católica de Moçambique, Padre
Alberto Ferreira, que do alto de toda a humildade que lhe
é reconhecida, está sentado como estudante enriquecendo
todo o seu já vasto saber.
Aquando da cerimónia de 27 de Agosto a coordenadora,
Professora. Elisabete Azevedo-Harman, deixou dito que a
próxima edição deste mestrado iniciará já em Novembro de
2011 e que a terceira, terá lugar na cidade setentrional moçambicana
de Nampula.
Novos horizontes certamente se vão abrir mas os objectivos
de, através desta Pós-graduação e Mestrado, contribuir
para a qualificação e modernização da actividade política,
para a incrementação dos níveis de boa governação e da
eficiência dos serviços de gestão da coisa pública e para a
sedimentação da percepção globalizante da democracia, alternância
do poder, direitos humanos e estabilidade política
continuarão a ser um marco por atingir.
E só assim valerá a pena alguma vez terem sido traçados.
E só assim a Academia terá dado o seu incomensurável
contributo na consolidação da paz, da justiça social e da
reconciliação nacional que Moçambique aspira a esta hora
da sua história.
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