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A Azulejaria no Exército

A Azulejaria no Exército

Permitam-me que comece por agradecer o convite tão honroso para apresentar hoje este livro, e que felicite o Estado-Maior do Exército pela sua edição.

Francisco Proença Garcia (org.); José Paulo Berger (texto)
A Azulejaria no Exército - Pátio dos Canhões

Lisboa: Estado-Maior do Exército, 2013

por Mário Pinto Manuel Braga da Cruz

Professor Catedrático e antigo Reitor (2000-2012) da Universidade Católica Portuguesa

Não pode haver melhor ocasião para publicar e divulgar esta colecção de painéis de azulejos com as mais importantes batalhas da nossa história e os heróis que as travaram, do que este peengranríodo em que estamos, precisamente, a tentar sair de uma intervenção financeira externa e readquirir a nossa plena capacidade de decisão neste domínio.

A Azulejaria no ExércitoNunca, como hoje, foi tão necessário, recordar o esforço das gerações que, antes de nós, ao longo dos séculos, construíram Portugal como nação soberana e independente, reconhecida pee prestigiada no concerto das nações mundiais. O processo de globalização e os processos de integração transnacional, a que estamos inexoravelmente compelidos, não nos devem nem podem fazer perder a consciência da comunidade nacional a que pertencemos, os seus interesses próprios, a peculiaridade da riqueza material e cultural que herdámos e que temos obrigação de legar aos vindouros dignificada e aumentada. É o primado da Nação sobre os interesses particulares e locais, que importa sublinhar, mas também a prioridade da Nação sobre o Mundo, que não pode esquecer-se nem sacrificar-se.

Nunca, como hoje, em tempos de soberania partilhada, foi tão urgente tomar consciência da importância da nossa capacidade interna e externa para influenciar decisões internacionais, o que só será possível se potenciarmos a própria identidade nacional, a percepção dos elementos que para tal contribuem, e a sua projecção internacional.

Não se trata de fomentar qualquer fechamento internacional, nem de promover um nacionalismo egoísta e agressivo, mas de entender e promover o interesse nacional no jogo dos demais interesses regionais e internacionais. E para isso é fundamental consolidar a identidade nacional, fomentar a unidade nacional, acima das legítimas diferenças.

O país viveu emocionado, nos últimos dias, homenagens a heróis desportivos nacionais, que uniram mais do que dividiram, que recordaram momentos de orgulho nacional por eles proporcionados nas competições internacionais.

A nossa história militar está cheia de actos de heroísmo patriótico e nacional, de homens que morreram pela Pátria, na esperança e convicção de que o seu sacrifício pelos outros não seria em vão, mas contribuiria para o engrandecimento de todos os que compomos Portugal como Nação. Recordá-los a eles, aos seus feitos gloriosos, ao seu sacrifício, é compreender a quem devemos o que hoje somos, o que temos, o que fazemos por nós e pelos outros.

Foi por isso que no passado, o Exército português quis gravar nos muros deste antigo edifício, a memória histórica desses principais feitos militares, como exemplo do que deve ser a sua missão e a sua dedicação à Pátria. E quis fazê-lo com esta arte bem portuguesa do azulejo, reconhecendo que a melhor maneira de honrar portugueses é por meios culturais portugueses.

É importante porém, que esta memória e este exemplo histórico não pertençam apenas aos militares, mas sejam partilhados pela sociedade civil. Daí a oportunidade, amplamente justificada, da publicação em livro e da divulgação pública destas imagens e destas representações históricas e artísticas.

As várias batalhas aqui representadas não foram apenas travadas contra inimigos, mas também contra adversidades, que tivemos que superar, para atingir o que conseguimos. A par de batalhas militares contra exércitos estrangeiros que nos invadiram ou se nos opuseram pelo mundo, estão também aqui representadas as epopeias da descoberta do caminho marítimo para a India, a passagem do Cabo da Boa Esperança, a descoberta do Brasil, em que as adversidades que tivemos que vencer não foram apenas humanas e sociais, mas naturais. E entre os heróis aqui identificados para nossa memória e orgulho, não estão apenas vencedores, nem mesmo apenas condutores de forças vitoriosas, mas também os que lutaram sem conhecer a vitória, mas morreram pela Pátria, os mais simples, tantas vezes ignorados, como tão bem está exemplificado com o primeiro soldado a cair na frente da Flandres na I Grande Guerra mundial.

Nem todas as batalhas construtoras de Portugal e do seu Império ultramarino, aqui lembradas, foram conquistas. Muitas das que estão aqui representadas, foram reconquistas, que nos recordam que, por incúria ou desgoverno, podemos sempre deitar a perder o que outros laboriosamente construíram antes de nós, mas que também, com organização, disciplina e determinação, podemos retomar o que se perdeu, e regressar ao caminho esquecido e abandonado da vitória e da exaltação colectiva do que somos e queremos continuar a ser.

Nem todas as batalhas aqui apresentadas foram em solo nacional, mas fora dele, defendendo porém interesses nacionais, o que atesta que as fronteiras destes nem sempres coincidem com as fronteiras geográficas de Portugal e que, por vezes, a defesa da Pátria obriga a combater e a lutar bem longe, seja no Oriente, em Africa, na América, ou nos campos do centro da Europa, como aconteceu no passado, seja nos Balcãs, no Oriente próximo, ou nos mares internacionais, como ocorreu mais recentemente.

A nossa história militar está cheia de actos de heroísmo patriótico e nacional, de homens que morreram pela Pátria, na esperança e convicção de que o seu sacrifício pelos outros não seria em vão, mas contribuiria para o engrandecimento de todos os que compomos Portugal como Nação

O estudo das batalhas é da maior importância não apenas militar, mas também política e social. Porque as batalhas não se ganham sem liderança inteligente, sem disciplina partilhada, sem organização competente, sem forças suficientes, em suma sem um pensamento estratégico. E a estratégia, tal como a liderança, a disciplina, a organização, e os recursos, não se limitam ao domínio militar, mas são comuns aos demais domínios da vida social e política. Os problemas de segurança e defesa são seguramente militares, mas não se podem equacionar e resolver sem serem enquadrados em todas as suas dimensões. Não pedem apenas o concurso dos militares mas também de muitos que são indispensáveis para o seu sucesso militar. Daí a importância que as batalhas sejam estudadas não apenas por militares, mas também por todos os que lidam com a resolução de problemas, com a gestão de organizações, com a liderança de forças, na vida política, social e económica.

Portugal precisa da consciência e identidade nacional dos portugueses, do patriotismo dos que por ele combatem nas muitas frentes onde se jogam os interesses nacionais. Portugal precisa de Forças Armadas preparadas, apetrechadas, motivadas, capaz de honrar a tradição gloriosa da sua história, para defender o imenso país que somos e os seus inesgotáveis recursos humanos e naturais, os interesses dos portugueses, espalhados pelo mundo, e os compromissos internacionais de hoje.

Este é um livro que pode contribuir para tudo isto, se preencher a sua função: a de ser lido e visto por muitos, a quem deve motivar para emulação dos que nos antecederam.

Senhor Chefe do Estado Maior do Exército, já o felicitei pela edição desta obra. Sei que o vou assustar, mas este é um livro que devia estar em todas as escolas de Portugal, onde nem sempre se recordam estas batalhas, nem os seus heróis, mas onde é preciso voltar a incutir o amor a Portugal, a despertar o orgulho pelo que fomos e somos, e a esperança de voltarmos a ser mundialmente grandes apesar da pequenez da nossa dimensão populacional e territorial. Oxalá este livro contribua para que tal venha a acontecer.

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