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O Culto do Património Cultural

O ensino da História, o entendimento aberto das Humanidades, a cultura exigente que se demarca da mediocridade e da irrelevância, o diálogo competente entre saberes e culturas têm de merecer cuidado e atenção.

O ano de 2018 foi declarado pela União Europeia como Ano Europeu do Património Cultural. O tema do património cultural é complexo. Nada pior do que tratá-lo de ânimo-leve, ao sabor dos lugares comuns. Tratamos da relação da contemporaneidade com a História. De facto, os lugares de memória correspondem sempre a uma encruzilhada de referências e de tempos. Qualquer simplificação revela-se perversa. Se os anglo-saxónicos preferem usar a palavra “heritage”, no sentido do que recebemos, nós recorremos a uma expressão de origem latina que liga à noção de serviço (“múnus”) à de relação com os nossos antepassados (“patres”). Temos, assim, uma ideia dinâmica, que aponta no sentido da ação e da responsabilidade. Eis por que razão as políticas públicas de cultura, e em bom rigor de educação, têm de partir da preservação e do conhecimento da memória, para melhor podermos entender a capacidade criadora e renovadora das novas gerações. O ensino da História, o entendimento aberto das Humanidades, a cultura exigente que se demarca da mediocridade e da irrelevância, o diálogo competente entre saberes e culturas têm de merecer cuidado e atenção. Há exatamente cem anos, dia por dia, Almada Negreiros assinou o “Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX”. Aí, muito dominado pela conjuntura que o rodeava e pela presença da guerra, insistia em que era preciso criar a pátria portuguesa do século XX - importando a demarcação relativamente a um entendimento indiferente, passadista, fraco, decadente, redutor e fechado. Em lugar da inércia e da burocracia, urgia despertar energias. Haveria que assumir a coragem de considerar as qualidades e os defeitos próprios - para que a qualidade pudesse ser referência. E que foi buscar o artista para fundamentar a sua pesquisa sobre o futuro? O Ecce Homo quatrocentista do Museu das Janelas Verdes. Ou seja, mais importante do que a invocação de referências passadas ou mortas, haveria que que encontrar as qualidades dos melhores, projetando-as nos vivos. Em lugar de ler a História como um tempo ultrapassado, haveria que estudá-la e compreendê-la como movimento. Em vez da falta de cuidado relativamente ao que nos foi legado pelo passado, importaria cultivar a capacidade renovadora, suscetível de acrescentar valor ao recebido. Daí o regresso aos pintores e artistas de quatrocentos – num entendimento vital de património que se renova permanentemente. Almada invoca, por isso, “estes meus grandes olhos de europeu, cheios de todos os antecedentes; com o passado, o presente e o futuro numa única linha de cor, escrita aqui na palma da minha mão esquerda” (Conferência no 1, 1920).

 

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