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A construção de uma Ética Humanista

A construção de uma Ética Humanista

No final do ano lectivo, resultado do inquérito: Cristiano Ronaldo tornou-se o “Sr. Desporto”, António Damásio o “Sr. Cientista”, Eduardo Lourenço o “Sr. Filósofo... e Guilherme d’Oliveira Martins (GOM) o “Sr. Cultura”.

Guilherme d’Oliveira Martins
Ao Encontro da História
O Culto do Património Cultural
Gradiva, 2018

Miguel Real Miguel Real

Colaborador, Jornal de Letras; escritor, ensaísta, professor de filosofia

Nos últimos anos da vigência da disciplina do 12o ano de “Área de Projecto”, três turmas da Escola Secundária de Mem Martins fizeram um inquérito à comunidade educativa (alunos mais velhos, professores, encarregados de educação, lojistas, comerciantes, uma amálgama sociologicamente classificada de “pequena-burguesa periférica”) sobre personalidades públicas nacionais eminentemente representativas da sua especialidade, profissão ou sector. No final do ano lectivo, resultado do inquérito: Cristiano Ronaldo tornou-se o “Sr. Desporto”, António Damásio o “Sr. Cien- tista”, Eduardo Lourenço o “Sr. Filósofo... e Guilherme d’Oliveira Martins (GOM) o “Sr. Cultura”. Assim era popularmente conhecido entre os alunos e a comunidade educativa na primeira metade da década inicial deste século.

A construção de uma Ética Humanista

E nada de mais justo. De facto, GOM tem a raríssima capacidade de tudo transformar em cultura: o Direito, sua casa de origem, a Economia e as Finanças, a Organização e Gestão de instituições, a Educação, a Literatura – todos estes impulsos são cruzados e sintetizados numa visão humanista da cultura à Fidelino de Figueiredo: “Cultura é o conjunto de ideais condutores, o sistema de juízos e valores, de opções e preferências que orientam uma época; é a imagem que cada homem civilizado se forma do mundo e do passado da sua espécie, e o plano de acção de actuação futura que se reserva...” (Menoridade da Inteligência, 1933, pp. 50-51). Neste sentido, a cultura evidencia-se como o motor da vida pública de GOM, constitui a sua imagem de marca e o seu estilo de actuação. Sintetizando: os domínios sobre os quais palestra e escreve circunscrevem-se, no campo teórico, a um complexo semântico de ideias em torno da Educação, da Ciência, da Literatura e da Filosofia, e, no campo prático, vivo, à História, sobretudo ao passado da História de Portugal, metamorfoseado em Património Cultural, de que se tem tornado um dos mais eminentes zeladores, prestando-lhe, no presente, vida histórica e comunhão estética.

No primeiro sentido, o teórico, detecta-se nos seus últimos livros uma inquirição sobre os valores universais orientadores do homem, sobretudo do homem europeu actual, a necessidade de revitalização de uma ética moderna (não pós-moderna) que possa “salvar” o homem da actual encruzilhada labiríntica na qual, como na decadência romana, todos os valores parecem igualar-se, justificado cada um segundo o contexto social de origem (um multiculturalismo sem escala axiológica vertical – o homem “líquido” segundo Zygmunt Bauman – no qual, a partir de uma falsa e estereotipada identidade, a exclusão acaba por ser inevitável – veja-se o exemplo actualíssimo dos refugiados muçulmanos em certos países europeus). Assim consistiu a sua intervenção no colóquio “Metamorfoses da Cultura”, na Covilhã (Un. Beira Interior, 2016), “Cultura, Aprendizagem e Desenvolvimento Humano”; assim ganha conteúdo a maioria dos capítulos 3. e 4. do livro ora publicado, Ao Encontro da História (2018), onde se entrelaçam Damião de Góis e Corsino Fortes, Eduardo Lourenço e Santa Teresa de Bernini, Manuel Alegre e Orpheu, Viegas Guerreiro e Camilo, Antero e Graça Morais... Sim, são textos avulsos, repositório de intervenções nos jornais, mas atravessados todos eles pela busca pessoal do autor relativo a essa nova ética humanística conciliadora da igualdade e da liberdade, da tradição e da inovação, dos direitos e dos deveres, do progresso tecnológico e da cultura histórica, do individualismo e da coesão social, do passado com o presente da Europa, da participação cívica e de uma política do bem comum e da responsabilidade individual. Ao fim e ao cabo, conciliar, com um sentido de futuro, a permanência dos valores essen-ciais da nossa civilização judaico-cristã e o contributo do individualismo e da iniciativa liberais da Idade Moderna com os desafios concretos da história da Europa da actualidade. Ou seja, o que GOM designa no livro, contra os “modernos Hunos” (p. 81), expressão de Alexandre Herculano, por “Humanismo pleno” (pp. 88 – 92) referindo-se a Umberto Eco.

Ao fim e ao cabo, conciliar, com um sentido de futuro, a permanência dos valores essenciais da nossa civilização judaico-cristã e o contributo do individualismo e da iniciativa liberais da Idade Moderna com os desafios concretos da história da Europa da actualidade

No segundo sentido, o de se estatuir a história, não como um amontoado de escombros do passado, mas como “memória viva”, tecido cultural e base educativa de uma “cidadania civilizada” e “expressão da criatividade humana”, GOM dedica o “Pórtico” e o primeiro e segundo capítulos, “A magia das viagens” e “O culto do património”, respectivamente. Para GOM, deduz-se dos textos, que a História se transforma em Cultura quando se realizam duas características: 1. – no mundo prático, opera-se uma criação/inovação face ao passado (seja uma nova metodologia agrícola, seja a criação das redes sociais);
2. - no mundo teórico, opera-se uma criação nova na estética, na filosofia, na religião, na ciência, na política, um novo modo de ver o mundo ou uma parte dele. Mas Cultura, prática ou teórica, eticamente correcta ou má, identifica-se sempre com Criação, marca universal e transtemporal da essência humana.

No “Pórtico”, evidenciam-se, segundo uma política europeia, mas de alcance universal (UNESCO), o significado de “património cultural” como história viva, memória concreta do passado, e, no caso de Portugal, “símbolos do caminho singularíssimo de um povo, que se afirmou e engrandeceu em contacto e no respeito dos outros” (p. 11). O primeiro capítulo versa sobre a aplicação concreta desse modo de viver a história como património vivo – as viagens do ciclo “Os Portugueses ao Encontro da sua História”, verdadeiras “peregrinações” dos associados do Centro Nacional de Cultura aos espaços mais importantes da construção do Império: Índia, Tailândia, Birmânia, Etiópia, Japão, Dinamarca... O segundo capítulo apresenta novos exemplos da vivência actual do “património cultural” como “factor dinâmico” (p. 76), como “actualização criadora” (p. 83), “não numa lógica fechada e retrospectiva, mas aberta e orientada para diante”, dando exemplos de Espanha, louvando Alexandre Herculano como modelo de respeito pelo património histórico e das comemorações dos dez anos da Convenção de Faro sobre o Património Cultural, por si coordenada em 2005.

Ao Encontro da História. O Culto do Património Cultural é, assim, constituído por textos de quem, não separando prática de teoria, faz da vida individual e institucional motor de cultura e exercício de cidadania, agindo e reflectindo, levando-nos, a nós, seus leitores, a reflectir e a tentar alcançar o mesmo “humanismo pleno”.

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