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Os Fuzileiros em África, 1961-1974

Os fuzileiros em África

Os fuzileiros em África

Uma obra que nos apresenta o modo como os Fuzileiros da Marinha Portuguesa actuaram “sobre a terra e sobre o mar” e igualmente nas vastas redes fluviais dos três teatros de operações africanos

John P Cann
The Fuzileiros Portuguese Marines in Africa 1961-1974.
Helion & Company, 3016

John P Cann
Os Fuzileiros em África 1961-1974.
Tribuna da História, 2018

Nuno Vieira Matias Nuno Vieira Matias

Almirante e IEP-UCP, Lisboa

Este livro, conforme refere o seu autor, dá-nos “a conhecer o modo como os Fuzileiros da Marinha Portuguesa garantiram a segurança das redes fluviais nos três teatros de operações e leva-nos a examinar de perto a sua organização, as suas operações e a sua eficácia”. Contudo, antes de apresentar a obra, valerá certamente a pena dar satisfação à natural curiosidade de conhecer o Autor e também de saber o que motivou um académico americano a interessar-se pelos últimos con- flitos portugueses em África, dedicando-lhes uma profunda e prolongada investigação de mais de duas décadas, publicada em quase uma dezena de livros.

John P. Cann foi oficial aviador da U.S. Navy, é doutorado em estudos de guerra pelo King’s College de Londres, desde 1996, é in- vestigador e professor aposentado de Assuntos de Segurança Nacional da Universidade do Corpo de Fuzileiros dos Estados Unidos da América, antigo membro da equipa de inves- tigação do “Institute for Defense Analyses” e bolseiro residente da Universidade da Virgínia. Durante o serviço activo na U.S. Navy, foi por diversas vezes colocado no Comando da Área Ibero-Atlântica da NATO, em Oeiras, entre 1987 e 1992, como reforço do seu estado-maior em exercícios.

Estas estadias deram-lhe a oportunidade de contactar com oficiais portugueses dos 3 ramos das Forças Armadas, o que lhe gerou grande curiosidade e admiração pelas campanhas portuguesas em África, de 1961 a 1974. Ficou impressionado pela forma como um pequeno país, Portugal, sustentara três frentes de guerra, uma a mais de 8 mil quilómetros de distância, durante 13 anos, com uma gestão de operações imaginativa, adaptara estratégias e organizações com muito limitados recursos, etc. E de tal forma sentiu o caso, que o decidiu estudar e escolher como tema para a tese de doutoramento no King’s College, que elaborou entre 1993 e 1996. Conheci o Autor no final de 1994, quando, durante uma vinda a Lisboa dedicada à in- vestigação para essa tese, me solicitou uma entrevista sobre a minha experiência dos conflitos africanos e fiquei surpreendido ao, dois anos depois, receber pelo correio, vindo dos EUA, o livro “Counter Insurgen- cy in Africa- The Portuguese Way of War, 1961-1974”. Resultou do trabalho de douto- ramento e seria apenas a primeira das várias obras que editou, nos EUA, em Inglaterra e em Portugal, sobre as nossas campanhas, com análises de conjunto e também específicas do Exército, da Marinha e da Força Aérea.

Esta diversidade de obras, longe de di- minuir o interesse internacional pelo tema, tem sido cada vez mais considerada por reflectir um brilhante, notável e verdadeiro exemplo de planear e de fazer a guerra com limitados meios materiais e humanos. Foi, nessa linha de interesse, que a editora inglesa Helion & Company, de Londres, encomendou mais trabalhos ao nosso distinto Autor, que correspondeu com as obras: “The Flechas – Insurgent Hunting in Eastern Angola, 1965-1974” publicada em 2013, outra sobre os Paraquedistas, seguida pela “The Fuzileiros- -Portuguese Marines in Africa 1961 1974” e por uma relativa aos Comandos, em 2016. Trata-se de quatro obras também editadas em português pela Tribuna da História.

O livro “Os Fuzileiros em África, 1961-1974”, recentemente apresentado, trata, conforme se lê na sua contracapa,

“ da actuação dos Fuzileiros Portugue- ses, um corpo militar com quase quatro séculos de tradição, criado em 1621 como Terço da Armada, reorganizado como Brigada Real da Marinha em 1797, depois Regimento da Armada... etc., até ser dissolvido em 1926. No seguimento dos acontecimentos no Congo Belga em finais da década de 1950 e por empenha- mento do almirante Reboredo, em 1961 este corpo foi novamente reactivado, com elementos da Marinha enviados a treinar nas Marinhas Francesa e Britânica e com a criação da Escola de Fuzileiros em Vale de Zebro...... Os fuzileiros foram submetidos a um dos mais longos e fisica- mente exigentes treinos de infantaria do mundo, com uma duração de quarenta e duas semanas, uma percentagem de 15% a 35% de sucesso e a obtenção da desejada boina azul.”

Esta especialização corresponde a uma das adaptações que Portugal teve que fazer das suas “Forças Armadas ao novo tipo de guerra e criou unidades especialmente vocacionadas para esse desafio, adaptando-se à nova guerra ao invés de tentar combatê-la com forças inadequadas”, como sabiamente indica o Autor na sua “Introdução”, onde também refere “ Um dos progressos mais notáveis foi o da criação e do uso de forças especiais para combater os insurrectos.

Devido à vastidão e à variedade do terreno de batalha, foi necessário criar especializações dentro das forças especiais. Os Fuzileiros foram empregues no ambiente aquático e a nossa história começa precisamente com a sua reactivação para garantir a segurança ao logo dos cursos de água. Num ambiente ribeirinho, a segurança tinha de ser esten- dida a terra, ao longo das margens, para controlar o uso dos rios.”

Um trabalho rigoroso, profundo, inteligente e honesto, donde ressalta uma muito nobre e tocante homenagem a todos os Fuzileiros

Estamos, de facto, perante uma obra que nos apresenta o modo como os Fuzileiros da Marinha Portuguesa actuaram “sobre a terra e sobre o mar” e igualmente nas vastas redes fluviais dos três teatros de operações africanos. Também avalia, com saber e proximidade, a sua organização, as suas tão imaginativas e variadas operações e a sua eficácia. E é, de facto, isso que o livro descreve com invulgar rigor, sensibilidade e isenção, ao longo dos seus 6 capítulos, sempre ilustrados com muitas e interessantes fotografias reais, obtidas por Fuzileiros nos locais de acção.

O Capítulo I, “Para África”, constitui um verdadeiro estudo de situação que começa pela envolvente externa de Portugal, até ao princípio dos anos 1960 e que continua com a abordagem do “Planeamento da Guerra Naval”, bem marcado pela acção do Alm. Reboredo e Silva, em 1959, ao fazer renascer os Fuzileiros e ao dar início à adequação dos meios navais às futuras necessidades em navios oceânicos, lanchas de fiscalização, lanchas de desembarque grandes, médias e pequenas e também botes pneumáticos, primeiro os Zodiac e, depois, os Zebro, de fabrico nacional. Continua com uma descrição genérica das “Operações” e com uma avaliação do “Inimigo”, para depois completar o estudo de situação, desenvolvendo a componente de “Os Fuzileiros”, incluindo na sua história, a herança dos Royal Marines e a orgânica que adoptaram na Metrópole e no Ultramar. Encerra o capítulo um conjunto de dados estatísticos, organizados em tabelas, com dados numéricos das unidades de fuzileiros que actuaram em Angola, na Guiné e em Moçambique, entre 1961 e 1974.

Os Fuzileiros em África, 1961-1974 Os quatro capítulos seguintes analisam a actividade operacional em “O Norte de Angola”, “Os Rios da Guiné”, “O Niassa e o Oceano Índico” e o “Leste de Angola”. Cada teatro é tratado com o muito especial saber do Autor sobre o tipo de conflito que travámos, acrescido de uma detalhada in- vestigação, baseada em documentos e em entrevistas de pessoas directamente liga- das às operações dos Fuzileiros. Neles são referidos diversos aspectos e citadas várias operações de que apenas cito alguns exemplos, deixando para a leitura do livro a satisfação da natural curiosidade.

No Rio Zaire, foi estabelecida uma linha de postos de vigilância, construída pelo pessoal fuzileiro, que passou a operar em terra e no agreste rio e a funcionar, além de comba- tente, também como agricultor e pescador, por óbvias necessidades logísticas. A sua eficácia foi determinante para a contenção dessa frente de luta.
Sobre a Guiné, para além do enquadramento operacional geral, é realçada a multivalência dos Fuzileiros, actuando conjuntamente com navios, meios aéreos, forças terrestres, etc. bem como são salientadas, com algum pormenor, nomeadamente, as operações “Tridente” (1964), “Via Láctea” e “Grande Colheita (1969), “Mar Verde” (1970). Nas de 1969, e particularizando, a Marinha, no seu conjunto, conseguiu grande eficácia na contenção da infiltração de meios materiais e humanos, a partir do Senegal, actuando no Rio Cacheu, seus afluentes, margens e áreas próximas, ao longo de meses, 24 horas por dia, contribuindo, nomeadamente, para uma enorme redução da actividade do PAIGC e para a “Operação Grande Colheita” que constituiu a maior captura de armamento, de uma só vez, na guerra de África, feita pelo Destacamento de Fuzileiros Especiais 13. Recordo-me que capturámos, na Península do Sambuiá, mais de 100.000 munições, de armamento portátil, granadas de morteiro, de canhão sem recuo, granadas foguete, minas, armadilhas, etc. e mais de 200 armas de vários calibres. Pelo meio, também encon- trámos alguns medicamentos, uma régua de cálculo, livros e revistas pornográficas soviéticas, etc., ...

A “Operação Mar Verde”, em Conakri, constituiu um sucesso do ponto de vista militar, com a concretização dos objectivos da liberta- ção dos 26 militares portugueses aí presos e do afundamento das 7 lanchas rápidas lança misseis e torpedos que a União Soviética tinha fornecido ao PAIGC e à Guiné Conakri. Estas poriam em causa o nosso controlo do mar e a consequente continuidade do transporte seguro de bens e de pessoas, tendo sido estas da ordem das muitas centenas de milhar, ao longo dos 13 anos de guerra.

O Capítulo IV aborda as operações em “O Niassa e o Oceano Índico”, desenvolvendo “O Problema dos Rebeldes”, “O Empenhamento Naval”, as “Operações no Niassa” e as “Ope- rações no Oceano Índico”.

Os Fuzileiros em África, 1961-1974

O Capítulo V, intitulado “O Leste de Angola”, aborda a extensão, a partir de 1965, das operações da Marinha ao leste de Angola, levando segurança aos rios, tal como tinha feito no Zaire. Os Fuzileiros tentaram controlar os sistemas fluviais e o comércio que os utilizavam, assim como, “procuraram antes conquistar as populações do litoral e influenciar positivamente o cenário económico e político, no combate à doutrina rebelde”, como bem investigou John Cann. O capítulo termina com referências a “Problemas dos Rebeldes” e às questões da “Ação e Reação”.

Para encerramento do livro, o Autor preparou um muito sintético capítulo, inti- tulado “O Preço”, entendido no sentido de os custos, com uma síntese estatística muito elogiosa para Portugal, para a sua Marinha e, particularmente, para os Fuzileiros. Refere, por exemplo, e cito:

“Durante 13 anos, Portugal foi confronta- do por uma comunid ade internacional manifestamente hostil à sua presença em África... ...Essa atitude de hostilidade ignorava os séculos de presença portugue- sa nessas regiões africanas e os esforços portugueses para promover aí avanços na educação e na saúde, bem como pros- peridade económica”.

Mais adiante, acrescenta:

“Os Fuzileiros, renascidos sob a vi- são lúcida do Almirante Reboredo e Silva, agiram de forma notável- em linha com a sua herança centená- ria- e deixaram o continente africano de cabeça erguida. Do total de 12.500 fuzileiros que combateram duran- te os 14 anos de guerra, 154 deixaram as suas vidas em África”.

Destes, mais de metade (86) morreram na Guiné, onde se incluem, permita-se-me a particularidade, os 4 mortos do meu Desta- camento de Fuzileiros Especiais 13. Um deles tombou muito perto de mim, despedaçado pela detonação de uma granada de RPG 2 , de origem soviética. Foi o Marinheiro Fuzileiro Especial Ferreira. Honra à sua memória!

O Capítulo continua com mais um elogio, que transcrevo: “Os Fuzileiros prosseguem hoje, orgulhosamente, a sua tradição como força de Operações Especiais da Marinha Portuguesa... ...O Corpo mantém as suas espe- cialidades em guerra anfíbia, reconhecimento costeiro, guerra não convencional, guerrilha, ataques, interdição marítima e operações de embarque, além de continuar a ser uma força de infantaria ligeira de elite e com capacidade de reacção rápida”. A encerrar o capítulo e o livro, encontra-se a estatística da componente mais custosa de “O Preço”, ou seja, a tabela dos “Fuzileiros mortos em África, 1962-1975”.

Senti, ao longo de toda a leitura deste livro, que ele constitui um trabalho rigoroso, profundo, inteligente e honesto, donde ressalta uma muito nobre e tocante homenagem a todos os Fuzilei- ros que tombaram no Campo da Honra, mas também àqueles que, nas três frentes de combate africanas, se sacrificaram e cumpriram com brio e honra a sua missão.

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