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Auto-de-Fé - A Igreja na Inquisição da Opinião Pública

Auto-de-Fé A Igreja na Inquisição da Opinião Pública

 

O livro que tive o privilégio de ser convidado a apresentar, é a demonstração bem evidente da intuição editorial de Zita Seabra e da extraordinária capacidade de comunicar do P. Gonçalo Portocarrero de Almada.

Zita Seabra, Padre Gonçalo Portocarrero de Almada
Auto-de-Fé - Igreja na Inquisição da Opinião Pública

Aletheia, 2012

por Manuel Braga da CruzManuel Braga da Cruz

Ex-reitor e professor da Universidade Católica Portuguesa

Estamos perante um livro que se ocupa de questões de grande acuidade e oportunidade, suscitadas frontalmente por Zita Seabra, que não se inibe de incomodar o seu entrevistado que, por sua vez, não só não foge, como se dispõe a esclarecer com grande inteligência, profundidade e liberdade os problemas nelas levantados. É um livro de leitura fascinante, que mantem viva a curiosidade, pela importância das questões que aborda, que se segue com interesse, pela vivacidade do diálogo, que se percorre até com prazer, pelo sentido de humor posto pelo P. Gonçalo Portocarrero de Almada em muitas respostas

Auto-de-Fé - A Igreja na Inquisição da Opinião Pública

Zita Seabra entra nos problemas sem cerimónias, fazendo-se eco das principais críticas que se formulam hoje à fé, à Igreja, ao catolicismo, pelo homem comum: a fé que parece estar a diminuir na Europa, tal como a prática religiosa, particularmente entre as elites que a Igreja parece estar a perder, a ponto de hoje largos sectores de opinião na Europa se atreverem a negar a matriz cristã da sua identidade cultural; a fé que se encontra posta em crise pelo desenvolvimento da ciência, e a quem a razão pretende por vezes relegar para o domínio da ignorância; a fé que se vê envolta em polémicas vivas, como acontece com os debates entre criacionismo e evolucionismo; a fé a que muitos parecem querer furtar-se a referir em público, cedendo à pressão laicista dos que a pretendem remeter para o domínio da privacidade e da consciência; a fé que parece soçobrar perante a questão do mal, e as exigências da liberdade; a Igreja, com as suas condescendências e conivências perante poderes injustos deste mundo, com as debilidades internas de muitos dos seus membros, com as suas dissidências históricas, com as fragilidades de muitos dos seus dirigentes; o anti-clericalismo de tantos opositores, expresso em tantas oportunidades; a secular desvalorização da Bíblia pelos católicos; a pessoa de Cristo e os evangelhos, a sua humanidade e a sua revolução, a contrastar com o conservadorismo tradicional da Igreja; a virgindade de Maria e o lugar do seu culto na Igreja católica; os separados da Igreja, e a posição perante os que discordam interiormente das orientações papais; o novo paganismo, o silêncio sobre Deus e o religioso na sociedade de hoje; o divórcio entre a cultura e a fé, entre a arte e a religião, a ignorância sobre as nossas raízes culturais, a descristianização da sociedade, e o avanço do ateísmo e do agnosticismo; a liberdade religiosa, o secularismo e o fundamentalismo; e as verdades da fé, postas em causa, como a existência do céu e do inferno, a noção de pecado, a canonização dos santos, o impacto do Concílio Vaticano II no catolicismo, sobretudo ocidental, a confissão em desuso, e o sentimento de culpa em decaimento, a religião “a la carte”, o relativismo; a salvação dentro da Igreja, a ascese e a mortificação; e ainda a questão da educação pela família ou pelo estado, onde as posições estatistas do socialismo parecem imperar, contrariando a doutrina da Igreja e dos papas sobre a matéria; a presença da mulher na sociedade e dos leigos na Igreja; o sentido do sofrimento; o acolhimento fácil de superstições; a nuclearização da família nesta sociedade de filhos únicos; o sacerdócio na Igreja, o secretismo de que é acusado o Opus Dei, e a sua actuação na igreja e na sociedade, por vezes julgada elitista e conservadora. Tudo isto passa pelas perguntas incisivas de Zita Seabra, que não consegue esconder a admiração pelo entrevistado, de quem pretende obter o máximo de esclarecimento e as explicações mais difíceis.

A tudo isto responde, com firmeza e igual frontalidade, o P. Gonçalo Portocarrero de Almada, não se furtando às dificuldades de algumas perguntas, recusando muitas vezes os pressupostos de que partem, reconhecendo a pertinência quando existe, ironizando - quando a propósito - com o sentido de muitas das afirmações que pretendem apoucar a fé e a Igreja. São respostas inteligentes, cultas e eruditas, mas de linguagem fácil e acessível, com comparações perceptíveis, sem concessões ao facilitismo ou ao comodismo, traduzindo em todas as palavras um grande sentido de identificação e de fidelidade à Tradição, ao Papa, ao Evangelho, acompanhado de uma grande humanidade, de um espírito de compreensão, mas também de exigência e de rigor expositivo.

Para o P. Gonçalo Portocarrero de Almada a fé, pela qual Zita Seabra inicia a entrevista, é o conhecimento de Deus e o compromisso com Jesus Cristo, aquilo que a Igreja tem precisamente para dar ao mundo.

Para o P. Gonçalo Portocarrero de Almada, a fé é o conhecimento de Deus e o compromisso com Jesus Cristo, aquilo que a Igreja tem precisamente para dar ao mundo

Recusa a ideia de que a igreja precise de elites para a evangelização, e invoca a escolha dos apóstolos: Jesus não escolheu os mais inteligentes, os mais prestigiados, para seus apóstolos, mas os mais simples e rudes, os que melhor poderiam testemunhar sem desvirtuamento a mensagem transmitida. Conclui com humor que, por essa razão, Jesus não daria para seleccionador nacional.

Recusa a alegada incompatibilidade entre a ciência e a fé, para afirmar peremptoriamente que quando uma teoria científica contradiz uma verdade de fé, ou não é verdade científica ou não é matéria de fé. Por isso compatibiliza o evolucionismo, que não é mais do que uma hipótese científica, com a criação do mundo por Deus. E recorda que a teoria do Big Bang foi pela primeira vez formulada por um padre belga professor de Louvaina. E critica Galileu, e os cardeais que se lhe opuseram, por ambos fazerem instrumentalização das escrituras para defesa de posições científicas.

Recusa o conflito entre a razão e a fé, precisando que a ciência responde ao como mas não explica o porquê, que seria do domínio da filosofia e da teologia. Por isso considera o ateísmo uma “atitude violenta contra a razão”, e que todo o conhecimento científico leva a Deus. Tarefa insubstituível da Igreja é a de falar de Deus ao mundo, sem se distrair com coisa menos fundamentais, dando-lhe a esperança que considera com ironia, a “gata borralheira das virtudes teologais”.

O agnosticismo é para ele uma forma de ignorância. A perda da noção de Deus conduz á perda da noção de dignidade do homem.

A Igreja não se deve comportar como um poder. E se não deve deixar de tomar posição perante as injustiças do mundo não deve porém fazê-lo sem medir as consequências dos seus pronunciamentos.

Não foi Deus que criou o mal. Deus ao criar o mundo criou-o limitado e defectível, mas orientado pra um fim que é bom. Tal como criou o homem livre, não para o mal, mas capaz de fazer o mal. O mal maior contudo é o mal moral, o pecado.

A Bíblia, cujo autor fundamental é Deus, inspirador dos que a escreveram, não esgota porém a revelação, que é completada pela tradição apostólica. O Cristo dos evangelhos não é um redentor político, nem um revolucionário temporal, mas um defensor do cumprimento da lei sem a ela se sujeitar. E a Virgem Maria, concebida sem pecado original, tem a sua razão de ser na maternidade divina.

A Igreja não marginaliza os que vivem em desacordo com a sua mensagem. Pede apenas fidelidade aos compromissos. Admite o P. Gonçalo Portoccarero de Almada que seja necessário repensar a catequese, adaptando-a à nossa cultura de imagem, respeitando a liberdade das pessoas, mesmo a de trajar, sem que tal ponha em causa a igualdade de todos os seres humanos.

O céu e o inferno não são lugares mas sim estados de alma. O sacramento da confissão, num tempo de diluição da noção de pecado, é um instrumento de santificação, porque de conversão, que aviva a percepção das imperfeições. O padre é um mero instrumento, um telefone, para entrarmos em diálogo com Deus. A confissão não é um tira-nódoas, mas um meio de correcção e de emenda.

Ser cristão não é apenas simpatizar com a figura de Cristo, mas segui-lo. Os “católicos adversativos” são os que reconhecem no mas, que acrescentam à sua identificação, algo que afecta negativamente a sua condição cristã. A Igreja é um instrumento de salvação, mas não a garantia dessa mesma salvação.

Por todas estas questões passa o P. Gonçalo Portocarrero de Almada, esclarecendo dúvidas, precisando verdades, contestando interpretações erróneas. E fá-lo não apenas de forma convincente, mas convidativa, chamando-nos a ponderar, a reconsiderar, a aprofundar. É o correr de uma conversa onde apetece por vezes entrar, para participar, recolocando questões, reforçando respostas.

Por fim, Zita Seabra chama à colação o papel da família e do estado na educação, o que leva o P. Portocarrero de Almada a considerar, na esteira da doutrina da Igreja, uma “tirania absurda” e inadmissível, a obrigação de as famílias cristãs custearem o seu próprio ensino e, ao mesmo tempo, o ensino estatal.

As últimas páginas do livro são dedicadas à explicação da sua vocação sacerdotal no Opus Dei, e ao esclarecimento das dúvidas e acusações usuais à prelatura. Contesta o caracter secreto que atribuem ao Opus Dei – uma coisa é aquilo que é secreto outra aquilo que não é notório-, o conservadorismo de que acusam por vezes a sua orientação, invocando a título de exemplo a bem inovadora igualdade de padres e leigos, o elitismo da atenção preferencial a empresários e universitários, exemplificando com outros estratos e profissões, justifica a existência de uma prelatura, e explica o carisma que lhe atribuiu S.José Maria e que é também o seu: santificar mundo, sem sair nem fugir dele, mas sem ser dele, preconizando uma muito maior presença dos leigos nas estruturas da Igreja, e justificando por isso a necessidade de muito maior formação deles. A necessidade de cristianização da sociedade, não significa que a Igreja se deva meter em todos os campos do saber.

Estamos perante uma tentativa editorial bem sucedida de abordar questões fundamentais de forma compreensível e atractiva, com a vivacidade de um debate que assume por vezes a forma da discordância, e que estimula ao posterior aprofundamento. Zita Seabra demonstra com esta entrevista que é possível conversar com profundidade, sem deixar de prender o leitor a um fio condutor vivo e instrutivo, sem ser pesado nem maçador. Conseguiu-o, graças à perspicácia das suas certeiras intuições, interpretando bem o sentido das interrogações contemporâneas sobre a fé e a Igreja, mas também, e talvez sobretudo, graças à extraordinária capacidade de esclarecer e explicar em termos simples e compreensíveis, por vezes mesmo com humor e ironia, verdades sérias e complexas de difícil apreensão, que o P. Gonçalo Portocarrero de Almada demonstrou de forma brilhante e eloquente.

Estão de parabéns a editora e os autores, pela forma plenamente conseguida como atingiram os objectivos que ambos aceitaram partilhar, num ano que o Papa quis dedicar à Fé. Este livro é seguramente, não apenas uma catequese, mas também, e talvez sobretudo, uma porta da Fé.

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