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Crónicas do Absurdo

Crónicas do Absurdo

5 de Março de 1946 – Numa pequena universidade do Missouri, nos Estados Unidos da América, uma voz carismática que durante a guerra, sobretudo através das transmissões radiofónicas, se tornara familiar a todos os Europeus, afirma o que ninguém até então verbalizara publicamente: “de Estetino no Báltico a Trieste no Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente europeu.”

Anne Applebaum
Iron Curtain: the Crushing of Eastern Europe 1944-1956

Doubleday, 2012

por Lívia FrancoLívia Franco

Professora do Instituto de Estudos Políticos da Universidade católica Portuguesa

Quem fala assim é Winston Churchill (então afastado da chefia do governo britânico há já nove meses), que logo se explica com mais detalhe: “os partidos comunistas, que nestes países da Europa de Leste eram muito pequenos, viram crescer a sua preponderância e o seu poder muito para além do seu peso real e em todos os lados procuram obter um controlo totalitário.”

A Europa de leste e o controlo totalitário são precisamente os temas fundamentais da mais recente obra de Anne Applebaum. Historiadora e jornalista norte-americana é autora de Gulag: Uma História, obra premiada com o Pulitzer em 2004 onde analisa as origens, o desenvolvimento e o modus operandi dos campos de concentração da URSS. Publicado em Portugal pela Civilização Editora e apresentado publicamente pela própria autora, no curso de Verão do IEP-UCP em 2005, Gulag rapidamente se tornou uma referência incontornável para a compreensão rigorosa do comunismo soviético. Agora, Iron Curtain vem seguir a esteira dessa investigação, alargando-a aos países europeus satelizados pela União Soviética imediatamente após a Segunda Guerra mundial. A partir de uma extensa consulta de arquivos oficiais e de uma significativa recolha de testemunhos pessoais (feita em boa hora, uma vez que seguindo as leis da natureza, a geração que viveu o período em questão está a desaparecer), e dando uso aos seus conhecimentos de polaco e russo (foi editora do The Economist na Polónia e sendo casada com o actual ministro dos negócios estrangeiros daquele país vive em parte lá) e recorrendo a tradutores especializados nas línguas dos restantes países em análise, Anne Applebaum apresenta-nos desta feita a crónica detalhada do processo de satelização dessa «outra» metade da Europa.

O conceito Europa de leste é, na sua essência, político e histórico, e não geográfico como muitos julgam. Com rigor, os oitos países geralmente por ele abrangidos – Polónia, Checoslováquia, República Democrática Alemã, Hungria, Roménia, Bulgária, Albânia e Jugoslávia – situam-se na Europa central, na Europa de sudeste e na Europa balcânica. Antes, a leste, quem está é a URSS com as suas repúblicas. Além disso, em 1944 os oito países em análise eram profundamente diferentes entre si: com culturas e línguas distintas, tinham tradições e experiências políticas diversas, dimensões populacionais e composições étnicas variadas, possuíam níveis de desenvolvimento muito diferentes e até assimétricos e, especialmente, tinham diferentes posições na guerra que então dominava o velho continente e a política mundial.

O que é que aconteceu para, a partir de então, esses países tão diversos entre si passarem a ser percepcionados como um «bloco»? É precisamente a isto que o mais recente livro de Anne Applebaum quer responder: o que aconteceu foi uma experiência histórico-politica conjunta que, tendo durado cerca de meio século, foi tão marcante e tão radicalmente transformadora que resultou na criação de uma identidade comum nova daquele grupo de países que ainda perdura. De tal modo que hoje, quase 25 anos depois da queda do Muro Berlim e do fim dessa experiência, esses países continuam a ser categorizados nas Nações Unidas como «Estados da Europa de leste» juntamente com a Federação Russa.

Em que consistiu essa experiência? Quais os seus traços principais? Como foi possível e porque durou aquele tempo? Iron Curtain vai procurar responder a estas interrogações de modo substancialmente diferente do que foi feito até agora pela historiografia daquele período e daquela região. E é aqui que se situa a sua originalidade e mais-valia. Em vez de se concentrar na formulação da grande teoria política e no estudo das instituições principais ou das personalidades proeminentes, Applebaum vai procurar entender o impacto daquela experiência – que foi literalmente de «sovietização» – no quotidiano daqueles países, e como ela foi meticulosamente desenvolvida, resultou na absoluta destruição das sociedades civis, das suas culturas, dos seus sistemas económicos e, por fim, na aniquilação das suas liberdades, tornando-os, consequentemente, muito mais parecidos.

É, por isso, que Iron Curtain é também uma obra sobre o totalitarismo. Sobre o totalitarismo na prática, não sobre o totalitarismo na teoria. De Mussolini, que explica (seguindo Giovanni Gentile - Origini e Dottrina del Fascismo) que o sistema totalitário mais não é do que “tudo no Estado, nada fora do Estado, nada contra o Estado”, a Hannah Arendt (As Origens do Totalitarismo), que o perspectiva como “a natureza radical do mal, o mal absoluto”, este foi «o» fenómeno do século XX, várias vezes ensaiado e muitas mais teorizado, dissecado e discutido. Na obra agora publicada, Anne Applebaum continua esta busca pela compreensão da vocação «total» e «absoluta» do totalitarismo, mas a partir de um novo enfoque: ao invés de desenvolver mais uma abordagem doutrinal, teórica ou filosófica do totalitarismo – que no essencial têm concluído que este é fruto da vocação política da modernidade – a autora vai concentrar-se – e só aparentemente isto é prosaico – na realidade prática que, afinal, alterou radicalmente as vidas de muitos povos europeus no século passado. Por outras palavras, procurando recuperar para a actualidade o alcance e o significado reais da experiência totalitária que julga terem sido entretanto bastante corrompidos, Applebaum vai centrar-se na investigação histórica (factual e testemunhal) do totalitarismo enquanto sistema e técnica quotidiana de “controlo total” da vida humana. Quanto mais não seja porque, no seu entender, essa recuperação é indispensável ao bom sucesso dos processos de democratização ainda em curso nos países em análise. “Antes de uma nação se reconstruir” defende, “os seus cidadãos precisam de entender em primeiro lugar porque ela foi destruída: como foram minadas as suas instituições, como a sua língua foi deturpada, como o seu povo foi manipulado. Precisam de conhecer detalhes específicos, não teorias gerais, e precisam de ouvir relatos na primeira pessoa, não generalizações sobre as massas.”

Applebaum vai centrar-se na investigação histórica (factual e testemunhal) do totalitarismo enquanto sistema e técnica quotidiana de “controlo total” da vida humana

Crónicas do AbsurdoIron Curtain está organizado de modo simples: um prefácio, duas partes e uma conclusão. Trata-se de uma organização que serve perfeitamente os objetivos da obra. Na primeira parte, apropriadamente intitulada Aurora Falsa, é meticulosamente analisado o modo como os elementos-chave do sistema soviético foram replicados nos países da Europa de Leste e resultaram na criação das famigeradas Democracias Populares. Na segunda parte, sob o título mordaz de High Stalinism, Anne Applebaum aborda detalhadamente as técnicas e as táticas que permitiram essa exportação do modelo soviético. Na sua essência esse processo traduziu-se literalmente numa captura e numa colonização realizadas através de um processo de tomada de poder. Até porque os partidos comunistas daqueles países, à excepção do da Checoslováquia (que fora o país mais industrializado da região entre as duas grandes guerras), tinham uma implantação social relativamente reduzida e claramente insuficiente para constituir governo. Tratou-se, portanto, de um processo que, tendo variado de país para país – porque as condições em cada um deles, como referimos, eram muito diferentes –, usou uma metodologia comum: através da implementação de uma política gradual de solidificação interna, os comunistas começaram por participar minoritariamente nos governos de salvação nacional, a partir dos quais, recorrendo aos instrumentos fundamentais das pastas ministeriais que controlavam (sempre bem escolhidas), foram afastando um a um todos os elementos não comunistas, eliminando assim qualquer alternativa (como quem vai cortando um salame em finas fatias, de acordo com as famosas palavras de Matias Rakosi, o líder húngaro de então).

Este processo e o modo como foi implementado nunca foi segredo para os Ocidentais. Basta ler As Democracias Populares de François Fejtö, publicado logo em 1952, para confirmar isso mesmo. Não obstante, a posterior abertura de arquivos como, entre outros, os das polícias secretas polaca (SB), húngara (ÁVH), e da RDA (STASI), do partido comunista da Alemanha de Leste, do ministério da defesa polaco e dos arquivos estaduais da Federação Russa, vieram permitir confirmar factualmente esses acontecimentos tantas vezes desmentidos, por exemplo, pelos partidos comunistas dos países da Europa ocidental, como o PCP e o PCF. É a partir desses documentos recentemente desclassificados e dos testemunhos que recolheu junto daqueles cidadãos comuns que sofreram na pele o processo que Anne Applebaum trabalha para recrear como tudo se passou: como a polícia secreta entretanto criada pelos comunistas, como os tribunais dominados por estes, como a rádio e a imprensa capturadas pelos novos senhores, e como políticas extremas de limpeza e recolocação étnicas implementadas por eles, foram capazes de, num período inferior a cinco anos, controlar primeiro e esvaziar ou proibir depois todas as instituições que, afinal, constituem uma sociedade civil. Foi assim que foram desaparecendo as colectividades desportivas, as associações religiosas, os grupos culturais e de folclore, as escolas privadas, as organizações de juventude, os clubes de todo o tipo, os grémios profissionais, os sindicatos, até não restar nada senão o Partido. Terminava deste modo a conquista do poder pelos comunistas na Europa de Leste, conquista essa que, paradoxalmente e em completa dessintonia com o marxismo-leninismo, não implicara uma única revolução popular legítima.

Crónicas do Absurdo

A polícia secreta controlar primeiro e esvaziar ou proibir depois todas as instituições que, afinal, constituem uma sociedade civil

Iron Curtain é uma grande crónica feita a partir de pequenas crónicas. Uma crónica que narra em ritmo alucinante como em tempo recorde, através da ideologia dominante, do partido único que se confunde com o Estado e da polícia secreta que usa o terror sem hesitar, o totalitarismo cai como uma cortina de ferro sobre os oito países da Europa de leste. Uma crónica que descreve como cada um dos seus 90 milhões de cidadãos poderia ser considerado um inimigo interno do regime apenas porque sim ou por coisa nenhuma. E porque, nas palavras do comunista checo Oskar Langer, “agora o destino e os interesses dos indivíduos são secundários. Porque o que está em causa é o nosso futuro, o futuro da humanidade.” Esta é também uma crónica que relata o método mais indicado para a criação do comunista exemplar, do verdadeiro homo sovieticus, que, enquanto tal, nunca se oporia ao comunismo nem conceberia essa possibilidade. Quanto mais não seja porque desde a mais tenra idade ele seria nutrido pelos mais belos exemplares da literatura infantil comunista, com títulos tão sugestivos como O Pequeno Bronek de Seis Anos e o Plano dos Seis Anos. Mas esta é ainda uma crónica acerca do Realismo Socialista, das suas várias manifestações, desde a pintura e a escultura, passando pela arquitectura, a música, o cinema, o teatro e a poesia, e de como essa grande corrente cultural deveria conseguir moldar de modo único a imaginação e os sonhos de cada cidadão. Por fim, esta é uma crónica sobre como erigir a cidade ideal, sobre como esta facilitaria o progresso de um novo tipo de sociedade e o pleno aperfeiçoamento do homo sovieticus.

O cronista é uma espécie de poeta do quotidiano. Apresentando um discurso que se move entre a reportagem e a literatura, entre o oral e o literário, entre a narração impessoal dos acontecimentos e a força da reflexão, Anne Aplebaum surge-nos como uma cronista incansável desta Europa de Leste. A sua minúcia, o seu detalhe, a constante proximidade com as fontes consultadas, tornam a sua uma grande crónica, capaz de esvaziar os mais variados argumentos revisionistas que, entretanto, o passar dos anos foi fazendo avançar. Entre estes, a autora destaca um particularmente corrosivo e insistente: que o período entre 1944 e 1947 foi particularmente liberal naquela região, marcado pela reconstrução e democratização dos países. E que, afinal, foi a emergência da guerra fria – muito por culpa da intransigência das potências ocidentais para com as naturais expectativas de Estaline – que tornou impossível toda a pretensão de autonomia nacional naquela região. Porém, os factos relatados em Iron Curtain desmentem numa penada estas narrativas fictícias e desagravantes: a URSS quis intencionalmente e de maneira impiedosa estabelecer regimes totalitários nos países que ocupou, tal como já o tinha feito no seu próprio território e nas várias repúblicas que o compunham. E é pois porque reconhece que “muitas vezes, em retrospectiva, a história parece inevitável”, que a autora defende que o estudo e a interpretação dessa mesma história não podem dispensar as “pequenas estórias” e as “estórias nunca contadas”.

Não obstante, para Applebaum, certas interrogações transversais e de maior reflexão são igualmente indispensáveis às boas crónicas. Nesta obra, uma ressalta especialmente: Porque será que as populações do leste europeu não reagiram de outro modo ao seu próprio processo de sovietização? As respostas que Iron Curtain nos oferece a esta questão fundamental são, no essencial, indirectas, mas não menos significativas apesar disso. Por um lado, as reacções foram aquelas na medida em que eram as possíveis tendo em conta as relações de força existentes no terreno – com destaque para a presença do Exército Vermelho em seis dos países em análise. Por outro lado, porque depois de seis devastadores anos de guerra, aqueles povos apenas desejavam a paz e poder continuar normalmente com as suas vidas. Em terceiro lugar, porque a democracia liberal e a economia de mercado tinham estado associadas às más experiências das décadas de 20 e 30 e não tinham deixado boa memória. Por fim, mas acima de tudo, e como nos demonstram as tantas histórias com nome que Anne Applebaum narra, porque a vocação do controlo totalitário é precisamente essa: a de monopolizar todas e cada uma das esferas da vida humana, incluindo a própria capacidade de reagir.

Ao contrário da teoria e da doutrina, aquilo que a prática do totalitarismo naqueles países vem provar é que a consciência humana manteve-se sempre viva, registando sem descanso as incongruências entre a ideologia oficial e a realidade política e social, mas também a hipocrisia omnipresente do regime e a desigualdade estrutural do sistema. É verdade que as tentativas mais formais, porque políticas, de por em causa o regime foram sendo sucessivamente esmagadas – as crises de 1953, 1956, 1961, 1968 e 1980, são prova disso mesmo. Não obstante, a oposição passiva (ou disfarçada) fazia-se todos os dias, das maneiras mais insuspeitas possíveis: através da participação no mercado negro, na leitura e circulação de samizdat (cópias clandestinas de obras censuradas), na audição de música proibida como o rock ou o jazz, na troca de piadas aparentemente incólumes sobre as incoerências do sistema, etc, etc. Neste aspecto, e como comprovam os pequenos episódios que recheiam este livro, a imaginação humana mostra não ter limites.

Os dois últimos capítulos são, portanto, os mais importantes e interessantes da obra. Neles a autora narra como, de facto, a experiência do totalitarismo falhou. E falhou não por falta de vontade e de desejo do próprio sistema totalitário. Não porque a teoria estivesse a ser incorrectamente aplicada. Mas, simplesmente – e como o falhanço do projecto soviético veio confirmar – porque o controle totalitário é irrealizável e absurdo. As palavras que o famoso Dr. Jivago oferece a um dos seus captores bolcheviques são, neste domínio, muitíssimo esclarecedoras e sempre actuais: “Transformar a vida! Os que falam assim talvez tenham visto o mundo sob diversas cores mas, quanto à vida, nunca souberam o que era, nunca lhe sentiram o sopro, a alma. Julgam que a existência é um pedaço de barro que só eles poderão enobrecer, que só eles poderão revigorar. Só que a vida não é material, não é uma substância que se molde. A vida, se quer sabê-lo, não precisa de nós para se renovar, para se refazer, para se transformar continuamente. Ela está infinitamente para lá das teorias absurdas que você e eu possamos elaborar.”

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